20 agosto 2008

A decepção, a auto-decepção e o pessimismo nacional



A transcrição do Nuno Caldeira da Silva parece injusta pela generalização, não se aplicando, decididamente, ao autor. Sim, há portugueses esforçados, inteligentes, decididos, com vontade de fazer coisas pelo país, como o Nuno que aqui em Banguecoque sempre dignificou o nome de Portugal, defende a "nossa dama" onde quer que se encontre e ama como eu o país. Para seguir as novidades da acidentada vida política tailandesa, já nem leio os jornais; leio o seu blogue, prova da qualidade e imparcialidade da informação que ali deposita dia-a-dia.

Hoje estive com ele num excelente almoço com amigos diplomatas tailandeses que se queixavam dos silêncios evasivos da nossa diplomacia em Lisboa. Eu, como sempre, disse sem rebuço o que pensava do nepotismo, do imobilismo, do não-saber-fazer e, sobretudo, o do não-deixar-fazer responsável pelo apagamento da nossa presença no mundo. O Nuno, diplomata e senhor de grande auto-domínio, optimista e esperançoso, disse que as coisas podem ser resolvidas conquanto haja boa vontade.

O problema português, do nosso sistema político e da amargura que vai afastando pessoas válidas do país é o de não querer ver que as pessoas geralmente situadas em lugares-chave da decisão política e da estratégia nacional são geralmente - infelizmente - as menos preparadas para desenvolver as actividades e funções para as quais foram escolhidas. Há sempre um invejoso medíocre, um cliente do partido A ou B, da seita X ou Y, um amigo do amigo do amigo intrometendo-se no processo da decisão governamental. Eu sei tudo isso, por que não fazendo parte de nada, a nada posso aspirar. Tenho passado anos a ser preterido por jogadas de bastidores. O que me vale ter curriculum, obra publicada, não parar de estudar, ter autonomia intelectual, não dobrar a espinha a ninguém se tal só me diminuiu no momento em que quero servir o país ? Durante anos não me apercebi - estúpido que sou - da essência do problema, até que dei comigo a comparar e avaliar os outros.

Conheço verdadeiras cavalgaduras alcandoradas por razões que a razão desconhece; conheço pessoas limitadíssimas, quando não mal formadas, quase patológicas, que foram singrando até lugares que exigem grande competência. Conheço, finalmente, pessoas honestíssimas que voltaram costas e se deixaram arrastar pelos acontecimentos, conhecedoras da inutilidade da crítica, do comentário ou do mais pequeno reparo.

É decepcionante que um país tão pobre como Portugal continue a promover a mediocridade e atire borda-fora a única riqueza que o poderia retirar do miserável estado de estagnação em que vegetamos. Não que os outros sejam excelentes; nós é que somos maus, nos tornamos azedos e cínicos quando nos damos conta do modus operandi do jogo social português. O Nuno sorri com bonomia, diz com propriedade o muito que sabe. Soube manter, sem mácula, as qualidades de um jovem: aberto, dialogante, compreensivo. Eu fui ficando cada vez mais bisonho. Como gostava ter ficado como o Nuno. Como me revejo em Schopenhauer !

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