06 agosto 2008

Bisonho, terrífico e anti-moderno


Confesso que nunca senti grande interesse e atracção pela escrita de Alexander Solzhenitsyn até me chegar às mãos, há cerca de 15 anos, esse monumento que dá pelo nome de Agosto de 1914, quiçá a mais bem sucedida e legível obra do autor do Arquipélago Gulague. O seu profundo misticismo, traço que o liga aos maiores prosadores russos de Oitocentos, a atmosfera densa, as personagens hieráticas que lembram bonecos de Deus, a permanente presença da queda sem remissão, o fatalismo associado ao absurdo da paranóia concentracionária que tão bem conheceu, condenam-no a autor "regional" à margem da tradição literária ocidental, a qual, aliás, detestava. A obra, ameaçada pela historicidade e pelo tom auto-biográfico, desenvove-se em torno da condenação do comunismo (v. O Primeiro Círculo; Um dia na vida de Ivan Denisovich), impedindo que dela se lavre imparcial juízo sem que se dissolvam os miasmas dessa brutalidade que se abateu sobre a Rússia, a matou como potência cultural e como Terceira Roma. É evidente que a comunistagem de pé-rapado, as cabeças cinzentas e os patetas líricos sempre o repeliram, difamaram e relegaram para a categoria de panfletário "anti-soviético", assim como muitos direitistas o exaltaram pelas mesmas razões, muitos sem jamais dele terem lido duas páginas. Neste particular, Solzhenitsyn pouco mais valerá que Harriet Beecher Stowe e a sua Cabana do Pai Tomás.

Contudo, lendo 1914, há ali potência, complexidade e naturalidade que fazem uma obra de arte. É o retrato completo e panorâmico de uma certa sociedade que morreu, talvez o último momento em que à inteligência foi dada voz. Depois, foi o ascenso das massas, das carnificinas, das demolatrias e sua crueldade, ódio e incapacidade para ver para além da gamela e do porta-moedas. Recomendo-o vivamente, pois ali está toda a sociologia, toda a política, toda a filosofia e toda a economia de uma Europa à beira do suicídio.

Solzhenitsyn não teve vida fácil, nem após a queda do comunismo. O seu nacionalismo moderado mas firme concitou ódios entre os patetas ultra-nacionalistas - os tais que pregam "os valores" e o "orgulho nacional" mas nunca leram um livro, não conhecem um monumento, não cultivam a língua nem sabem da história do seu próprio povo - como ofendeu quem pensava poder atraí-lo para as delícias do mercado. Manteve-se, sempre, obstinado e quase quadrado, agarrado à visão de uma Rússia imperial, ortodoxa, arcaica e quase selvagem.

Foi um homem de grande coragem, não há que duvidar, chegando ao extremo de se solidarizar com os alemães, esmagados, agredidos, roubados e mortos como animais pelo Exército Vermelho (v. Noites Prussianas), de condenar a duplicidade dos Aliados, atacar acerbamente os militantes anti-guerra do Vietname e defender uma Nova Rússia monárquica. Mas tudo isso é secundário. Importa é ler 1914.


Marcha Eslava (Tchaikovsky, 1876)

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