29 agosto 2008

As figuras da "revolução siamesa": o monge da floresta


No movimento político que pretende a queda do governo tailandês pontifica o major-general Chamlong Srimuang, ex-jovem turco que nos anos 70 liderou a luta política e a acção directa anti-esquerdista e esteve envolvido no golpe militar de 1976, que pôs termo ao governo eleito de Seni Pramoj. De origem social modestíssima, veterano da guerra do Vietname e Laos, homem profundamente religioso, ascético, vegetariano, abstémio e com voto de castidade, foi líder do Partido Força Moral e é aderente da seita budista Santi Asoke, cujos postulados doutrinários se fundam na mais depurada e rígida interpretação dos ensinamentos do Buda e na exigência do reforço da ética do despojamento. O general só consome uma refeição por dia - frutos, vegetais e leite - dorme em esteira e faz meditação em severos retiros espirituais.


As intervenções públicas do fogoso orador centram-se no combate à corrupção, na defesa da vida (o general opôs-se à legalização do aborto), na denúncia do capitalismo e no reforço da monarquia tradicional. Se é possível qualquer analogia com as correntes políticas europeias, situá-lo-ia na "direita tradicionalista e monárquica": contra o jogo democrático dos partidos (que encara como clubes), adepto da auto-suficiência e entusiasta do agrarismo face à globalização, defende a permanência do Budismo como Religião do Estado. É um "anti-moderno", uma voz antiga mas sempre procurada no debate entre a "via da floresta" (dos templos rigoristas) e a "via da cidade" (do budismo sofisticado e cosmopolita). Estes homens são reverenciados e apontados à juventude traumatizada pelo impacto da sociedade competitiva, produtivista e consumista como exemplos de liderança e incorruptibilidade. O que torna simpática esta "direita monárquica e tradicionalista" é a total ausência do moraleirismo pacóvio em que se atola a congénere europeia. Deve-se esta característica ao budismo, que não impõe mas sugere, que não pune nem perdoa, situando a religiosidade num plano absolutamente voluntário de aperfeiçoamento individual. É aqui que reside a força do budismo.

Nas fileiras de Chamlong não se instalou, porém, qualquer vírus xenófobo, pois o general faz parte da minoria chinesa. Estimamos, porém, quaisquer que sejam os méritos e a probidade do velho militar - de uma honestidade por todos reconhecida - que as suas possibilidades de vitória são pouco menores que o impossível. A Tailândia é um país moderno e aberto, profundamente integrado na economia mundial e aliado dos EUA, com uma classe média urbana muito ocidentalizada e indisponível para tais retrocessos.


Contudo, é entre as classes alta e média dos colarinhos brancos, bem como entre a aristocracia, que Chamlong encontra maior eco. A Tailândia não conseguiu recobrar o ânimo desde o colapso de 1998 e olha para o capitalismo internacional como uma ameaça à sua identidade e liberdade. É deste medo pela invasão e despersonalização que Chamlong retira a aura de homem do destino, mito popular profundamente ancorado num certo messianismo budista que pede as maiores provações na luta pelo triunfo final do bem. As figuras heróicas da Tailândia foram sempre militares: Naresuan, o Príncipe Negro, que expulsou os birmaneses em finais do século XVI; o general Taksin (não confundir com Thaksin, ex-primeiro-ministro odiado por Chamlong), que restaurou a independência do reino após a tomada e saque da antiga capital, em 1767, às mãos dos birmaneses; o general Chakri, fundador da actual dinastia.
Os próximos dias mostrarão quão dura é a fibra do velho tigre, pois aguarda-se a qualquer momento a luta derradeira nas barricadas de Banguecoque. Confesso que gosto deste homem senhor de grande carisma. Lê-se-lhe a sinceridade no rosto marcado, a amabilidade e simplicidade que vincam a máscara dos homens com "uma missão". Temo, porém, que desaparecerá em breve. Este morrerá certamente pelas suas convicções e, com ele, morrerá parte da tradição siamesa.

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