24 julho 2008

Quando um português morre na Ásia


Morreu o João Azeredo, nosso amigo de longa data. O João estivera em Macau como professor de português, antes de se fixar na Tailândia, onde se dedicava com entusiasmo ao ensino da nossa língua e cultura numa universidade de Banguecoque. Conquistado por esta terra, aqui refez a vida, voltou a casar e dedicou o que de melhor tinha aos seus alunos. Hoje encontrei o Anop, seu antigo aluno, hoje guia turístico. Quando lhe contei a desdita do João, que já não via há anos, o Anop deixou cair duas lágrimas pelo homem que lhe ensinara a nossa língua. O João era um homem sem complicações. De fala mansa, sem alardes e sem vedetismos, lá ia caregando a cruz de uma rotina a que ninguém por Lisboa parecia dar importância, não fosse a nossa presença na Ásia um absoluto desconhecido para os homens importantes que na "metrópole" vão deixando cair, letra a letra, da Índia ao Japão, a memória multissecular da presença de Portugal no Oriente.

Com o João trabalhei em várias ocasiões. Conhecia-o há dez anos e nunca uma sombra obscureceu a nossa relação, mesmo sabendo-o acorrentado ao risco e censura de uns senhores importantes que continuam a partir, maltratar e calcinar tudo o que mexa, pense, opine e faça algo por Portugal no Oriente. Da última vez que com ele trabalhei, há dois anos, numa conferência que aqui organizou e para a qual me convidou para falar sobre a visita de Rama V a Portugal em 1897, pressenti-lhe profunda mágoa pelo descaminho do IPOR (Instituto Português do Oriente).

Já vivendo em Banguecoque, encontrei-o em Novembro do ano passado, macerado e doente, não mascarando com rodriguinhos a sorte que a traiçoeira doença lhe ia traçando. Mantivemos contacto telefónico e em Março pediu-me que interrompessemos o contacto, pois já não tinha forças para manter longas conversas. Disse-me que nos encontraríamos em Junho, nas celebrações do dia de Portugal. Não apareceu. Fiei-me na magnanimidade da Parca e agendei uma visita para Agosto. De regresso a Banguecoque, coube ao Nuno dar-me a notícia do desfecho: "o João morreu hoje e o funeral vai ter lugar no próximo sábado". O português, ao fixar-se na Ásia, morre várias vezes: morre em vida para os senhores importantes de Lisboa, morre de saudade pelo tempo, locais e afectos que para trás deixou, morre civicamente, pois aqui vai vendo, à distância, o lento apagar do Portugal distante, cada vez mais pequeno, ridículo e sem sentido. Há, queiram os não, um destino para as pátrias. O nosso destino nunca esteve ancorado à Europa. Foi no mundo e para o mundo que nos esgotámos em tormentas, naufrágios, guerras e febres. Disso não sabem nada os senhores importantes que em Lisboa vivem a Oeste de tudo isto !
Só espero que se compadeçam da mulher que aqui deixou desamparada e que, honrando o morto, se preparem - com todas as tisanas e sais - para comemorar os 500 anos de relações entre Portugal e a Tailândia, previstas para 2011. É o mínimo que se lhes pede.


Sonata para piano 27 (Beethoven)

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