28 julho 2008

Memórias de uma receptadora e difamadora


A Biblioteca Nacional tem vindo a publicar ao longo dos últimos vinte anos as memórias de viajantes que em Setecentos e Oitocentos viveram ou por Portugal passaram. Esta fixação de estrangeiros por Portugal foi tão intensa que se pode falar, glosando Castel-Branco Chaves, num verdadeiro sub-género literário de literatura de viagens. Link, Rattazzi, Beckford, Merveilleux, Carrère, Dumouriez, Ruders e até o boníssimo Andersen, em tempos e conjunturas diversas encheram páginas que devem ser património cativo de qualquer biblioteca culta. Ali estão a fauna, a flora, a geologia e geografia do país, o retrato dos tipos sociais, crenças e hábitos, os acidentes da vida política, as grandezas e misérias de um país, ainda poderoso mas declinante, que fazia as maravilhas do escapismo de europeus saídos das brumas, chuvas e inclemências da Europa. A literatura de viagens a Portugal precede, concerteza, a vaga orientalista, que se fixa a partir de finais de Setecentos como tópico de exotismo e vai em crescendo dominando a literatura ocidental até meados do século XX, quando o mundo deixou de ter magia.

Acaba de me chegar às mãos, oferta da minha amiga e colega Manuela Rêgo, umas Recordações de uma estada em Portugal (1805-1806), da autoria de Laure Permon, ou antes, de Madame Junot, alias Duquesa de Abrantes. São páginas de historietas de desenfado, coscuvilhices, ajustes de contas com o passado e acessos de nostalgia de uma senhora que se tinha em grande conta na "Nova Ordem" que o Imperador impôs a ferro e fogo à Europa. No fragmento das Memórias que agora conhece tradução portuguesa com notas introdutórias de José Augusto França, assoma a visão napoleónica da Europa, que se queria de rastos e até agradecida ao astro francês que ilumuniva os espíritos após haver iluminado os campos de batalha com chacinas que ainda hoje, banalizada a violência de massas, nos deixam perplexos. É, no fundo, a visão do mundo de uma corte de mulherzinhas e generalecos que se impuseram como modelo, após haverem destruido tudo aquilo a que não podiam ter acesso no quadro do Antigo Regime caído com a Revolução. São os títulos postiços, a nova etiqueta, a macaqueação da vida das antigas cortes, os salões literários, os chás e a procura de bons casamentos - se possível com a velha aristocracia sobrevivente - à mistura com muita negociata de intendência, troca de favores e, até, compra e venda de obras de arte rapinadas um pouco por toda a geografia continental pelos exércitos da tricolor.

Laura Junot esquece tudo isso. Nisto, lembra-me as memórias de antigos dignitários do III Reich, que tiveram vida farta e poder absoluto durante os curtos anos do reinado de Hitler e desse passado, cheio de champanhes e luxos, esquecem a origem dessa sumptuária, amiúde roubada, confiscada ou requisitada aos legítimos proprietários. Laura Junot foi uma perdulária. Escreveu as memórias, dizem as más línguas, para angariar uns cobres, quando se esgotou a provisão de pratas, jóias, tapeçarias e loiças saqueadas pelo excelso marido quando, assinada a Convenção de Sintra, abandonou a barra do Tejo carregado com tudo aquilo a que aqui pudera lançar a garra. Como o marido morreu ainda sob o Império, Laura, qual Taillerand, apercebeu-se que os dias do Corso estavam contados, pelo que passou a fazer jogo duplo. Quando sobreveio 1814, apoiou a Restauração e, logo depois, durante os Cem Dias, fugiu de Paris. Era conhecida em Paris pela manias de grandeza, tão ostensiva e tão pouco fiável que os liberais - que fariam a Monarquia de Julho - dela fugiam como o diabo da cruz, assim como os velhos napoleónicos que nela viam a quinta essência da traição.

Laura esgota-se em páginas de mau gosto e grosseiro despeito pela Casa de Bragança. Nunca esperaram que o Príncipe Regente, a rainha doente e a corte se passassem para o Brasil. Queriam-nos humilhados, agrilhoados e enviados para França, como aconteceu com os ingénuos Bourbons, que se deixaram seduzir pelas promessas de Napoleão e acabaram afastados do trono e substituídos por um dos irmãos do Corso. O projecto napoleónico para Portugal era claro. Queriam, como o fizeram com Veneza, acabar com este "fenómeno", oferecer à Espanha parte do território e inventar um Reino da Lusitânia, que iria ter às mãos de um dos generalecos ou centuriado entre a parentela do Corso. Mas as contas saíram-lhes trocadas. Ao chegarem a Lisboa, viram, ao fundo, a frota anglo-portuguesa rumando a toda a brida para o Brasil. Laura esteve em Lisboa como embaixatriz entre 1805 e 1806, fazendo o jogo de charme que depressa se revelaria inconsequente quando Portugal se recusou obedecer ao Bloqueio Continental. É desse período que nos contam as "memórias". O alvo de toda a fúria da falsa duquesa é Carlota Joaquina. É com Laura que se inicia a lenda negra da "Messalina" portuguesa - portuguesa, sim, pois nas páginas de Laura fica dito e redito que Carlota Joaquina se considerava portuguesa e nisso tinha o maior dos orgulhos - que depois se foi engrossando no mais reles panfletarismo dos anos vinte e passou para a historiografia comprometida com a causa liberal. É assim que se fabricam e desfazem as reputações. Uma palavra, uma "história", logo uma tese. Sempre que tal assunto abordo com ferozes inimigos de Carlota Joaquina, lá vem a estória das caçadas da rainha, as cartas enviadas a familiares - que fariam corar o autor de Fanny Hill - o corpo disforme, a corcunda, as fieiras dentes negros, verdes e amarelos. Se tais cartas foram escritas, foram-no de certeza por mão estranha à rainha. Aliás, o século XIX foi perito em cartas e textos apócrifos, usualmente do mais baixo nível e destinados a triturar reputações. Se Carlota Joaquina era tão medíocre, tão insignificante e tão devassa, por que razão sobre ela, ao longo de século e meio, assestaram as baterias da mais torpe difamação ? Em Portugal (como em França, como se vê), não se suporta um adversário de valor. Como no combate limpo nada conseguem, lá vem a rábula da alcova para eriçar de fogos intestinos a vil raça dos difamadores.

O que ressuma das Memórias da falsa duquesa é, apenas - não desconsiderando o valor documental do livro, parcialmente roubado a Link no que a informação sobre a flora portuguesa revela - é o retrato psicológico da casta de bandidos que tomou o poder em França.


Le Pas Cadencé

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