03 junho 2008

Que volte o Saldanha


Recebo, atrasada, a notícia há muito esperada: o IPOR (Instituto Português do Oriente) encontra-se em ruptura financeira e já nem dinheiro tem para pagar aos funcionários. Resultado de amadorismo, inépcia e completa ausência de informação de base sobre como fazer e manter a actividada daquele que foi, no tempo do saudoso António Vasconcellos de Saldanha, um modelo de diplomacia cultural portuguesa na Ásia, ao actual IPOR só resta fechar as portas, vender as carpetes e lavrar epitáfio. É uma pena e uma grandessíssima vergonha para a imagem de Portugal, das nossas embaixadas, dos nossos leitores e lusófilos que se tenha dissipado por inveja o árduo trabalho de planeamento e execução que Saldanha por ali realizou. Onde quer que se vá, aqui na Tailândia, como na Malásia, na Indonésia, no Vietname e na China, o coro é unânime: "no tempo do Saldanha as coisas começaram a brilhar, falavam de nós, tinham respeito pelas nossas edições, pelas nossas conferências e colóquios; agora, é a apagada e vil tristeza".

Se eu fosse Sócrates ou o ministro que tutela o Instituto Camões, faria penitência por duas semanas, despedia toda aquela cáfila de incapazes e pedia a Saldanha desculpas pelas ofensas e tratos de polé com que o trataram. Uma coisa, fétida e nauseante, ressuma de tudo isto: em Portugal somos exímios na arte de maldizer, destruir, tripudiar e fazer mal, sobretudo às pessoas, tão poucas são, que poderiam evitar catástrofes.

O problema, para eles que mal sabem assinar o nome, é que Saldanha é um homem de cultura, daqueles raros homens de saber para os quais a acção e a direcção de institutos não são coisa estranha. O problema, para eles que nunca leram um livro, é que Saldanha tem obra, e da boa, lida e relida por eminentes autores, é citado, publicado em várias línguas, convidado de honra para todas as conferências, seminários e congressos da especialidade. O problema, caros amigos, é que Saldanha não tem partido, nem curibeca, nem mecenas, não gateja nem se agarra ao gibão de um tolo todo-poderoso que, com um rabisco, pode salvar ou perder a presença cultural portuguesa na Ásia. Portugal tem destas coisas espantosas. É a nossa triste sina. Amén !

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