16 junho 2008

Os "fascistas" no Sião



A influência das belas-artes italianas no Sião não deixar de colher de surpresa quem, estudando o percurso histórico da transição do Estado patrimonial monárquico tradicional asiático para o Estado moderno, poderia supor que a estética do poder aqui recolhida teria entrado ou por via francesa - dada a proximidade do Camboja, protectorado francês entre 1864 e 1953, do Laos e Vietname, colónias francesas - ou por via britânica, que a sul exercia protectorado sobre a Malaia (hoje confederação da Malásia) e a ocidente impunha a Pax Britannica sobre a Birmânia.

Rama V (r. 1868-1910), o grande rei que impôs modernização a passo rápido ao Sião para o furtar à colonização directa das potências europeias, viajou por duas vezes pela Europa em visitas oficiais (1897 e 1907), aí contratando inúmeros "conselheiros" técnicos. Quando desembarcou na Itália - as suas cartas à rainha Sawapa, regente durante as suas digressões ocidentais, são a todos os títulos um monumento à perspicácia - rendeu-se perante a imponência do que por lá viu, deixando-se contagiar pelo frenético ambiente cultural cisalpino, muito marcado pelo nacionalismo do rissorgimento e pelo exoticismo. Não nos esqueçamos de Madama Butterfly e de Turandot, de Puccini, mas também não menosprezemos a influência marcante que o pobre Emilio Salgari, com os seus rajás e tigres, exerceu sobre o imaginário de gerações de leitores juvenis. Ponderados os orçamentos - os italianos eram menos caros e menos perigosos que os franceses, entranhados de revolução e republicanismo - escolheu os italianos.

De Itália chegaram ao Sião fotógrafos, escultores, arquitectos, decoradores e músicos para realizar encomendas destinadas a exaltar o trono, embelezar as praças e jardins de Banguecoque e emprestar à capital os traços de uma nação orgulhosa e independente. As estátuas equestres, os frisos escultóricos, as residências reais e da vasta parentela de irmãos, meio-irmãos, príncipes de primeira, segunda e terceira linha - ou seja, da elite de sangue que dominaria o reino até ao advento do constitucionalismo no país (1932) - mais o muralismo, o mosaico e o vitralismo, a regalia da monarquia, o mobiliário dos palácios e ministérios, tudo isso foi entregue a italianos. Entre as mansardas esconsas de Montparnasse e o luxo do Sião, onde eram tratados como príncipes, muitos criadores italianos optaram pelo distante Oriente. Por cá ficaram durante décadas, num imparável esforço de iniciativas generosamente regadas pela munificência régia.

Estes artistas italianos, ardentes nacionalistas, receberam com satisfação o ascenso do fascismo em Itália. Para a consolidação doutrinária do fascismo, importa lembrar, foi necessária a aceitação por Mussolini da dinâmica corrente nacionalista liderada por Enricco Corradini, que detinha o monopólio da direita inteligente na península, dado o fascismo, fenómeno de rua, não possuir nomes de vulto nas artes e do pensamento, com excepção para o exótico e marginal Gabriele d'Annunzio, que mesmo durante os anos do regime, cumulado de elogios e prémios, nunca deixou de increpar com aspereza o Duce.

Ora, estes decoradores italianos chegados ao Sião, pertenceriam a essa linha doutrinária nacionalista impregnada de fascismo, mas nunca se deixaram impressionar pelos aspecto socialista e pela vis multitudinária do regime, mantendo, quer durante a passagem pelo Sião, quer mais tarde, já em Itália, no desenvolvimento de trabalhos encomendados pelo Estado, uma linha de coerente apego ao nacionalismo em que se filiavam: exaltação do povo, dos heroís e guerreiros, descoberta das fontes da expressão artistica popular, do artesanato, com particular fixação pelo folclore e pela literatura oral, mas também com esporádicas incursões - amadoras - ao mundo da arquelogia, da museologia e, até, do cinema e das artes gráficas.

Em Banguecoque - ao assunto voltaremos mais tarde - persiste o único monumento à vitória do Eixo - o Anusawalli Chai Samoraphum, ou Monumento à Vitória - erigido em 1941 para celebrar a guerra franco-siamesa de 1941, que se saldou pela incorporação das províncias ocidentais cambojanas na Tailândia. Esse monumeto, executado por Corrado Feroci - que no Sião criou a Faculdade de Belas-Artes e fez-se siamês, passando a chamar-se Silpa Bhirasi - é, para os tailandesas, o "monumento ao embaraço", porquanto, três anos volvidos, a Tailândia foi obrigada a devolver aqueles territórios à França.

Entre os artistas aqui chegados, destacou-se, pelo mérito e prolifica actividade, Galileo Chini, florentino de méritos vários que se iniciara na Arte Nova. Amigo de Puccini e Mascagni - dois outros nacionalistas seduzidos pelo mussolinismo - chegou a Banguecoque em 1911, realizando importante trabalho na decoração da Sala do Trono ( Ananta Samakhom) e no ensino do cânone ocidental aos pintores siameses. Para evocar o artista, os serviços culturais da embaixada de Itália na Tailândia prepararam uma brilhante exposição, acompanhada de catálogo, que está patente no Central Chidlom desde a passada semana. Merece uma visita, pois reflecte o entusiasmo e capacidade de fazer bem que os italianos possuem. Poderá esta exposição servir de exemplo para tantos miserabilistas que por Lisboa se arrastam em queixumes, buscando evasivas para nada fazer e adiando a necessária prestação que se nos pede para, em 2011, celebrarmos com análoga decência, os 500 anos da chegada dos portugueses ao Sião.
A Tailândia foi muito marcada por essa geração de italianos. O culto pela farda, pelas medalhas e passadeiras, as coreografias do cerimonial de Estado, os hinos e marchas, tudo isso, afinal, são vestígios desse "fascismo" aclimatado, doseado pelo exotismo e incorporado por um povo orgulhosíssimo da sua identidade.

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