07 junho 2008

O fim da primeira globalização da era contemporânea


As democracias, quando frágeis, são porta aberta para as mais ferozes reacções. Crer que os homens comuns dão valor à liberdade em desordem, à angústia de não saber o que fazer com os direitos abstractos, com as constituições, com a liberdade de imprensa e a separação de poderes é acreditar que o bom-senso, a razão e a boa-vontade comandam as sociedades. Mas não, nas sociedades modernas - atomizadas, individualistas, reivindicativas - o indivíduo comum sente-se ultrapassado, isolado e em perpétua competição pelo reconhecimento das suas qualidades. Quando se esgota, culpa a liberdade dos outros pelo seu fracasso e volta-se para as soluções holísticas. Foi assim no Japão do período Taisho (1912-1926), na liberal Espanha pós-Primo de Rivera, no Portugal dos casinos, da cocaína e dos lupanares dos anos 20, que José Augusto França reproduziu com eloquência, no Sião de 1932 a 1938, que a ditadura fascizante de Phibun Songkran matou, na Aústria social-democrática liquidada por Dolfuss. Mas foi na Alemanha que a máxima criatividade, a explosão do mérito, a contestação às fórmulas habituais, a provocação à acomodação do Zé Ninguém atingiu foros de furacão cultural. A reacção foi brutal e teve o fim que todos conhecemos. Nos anos 20, a bolsa, os jornais, as revistas culturais, o experimentalismo artístico, o consumo de bens exóticos, o turismo e a circulação de ideias e pessoas pareciam coisas normais. Dez anos volvidos, o mundo congelou, fardou-se, trocou a liberdade por uma imprensa integradora, a contestação pela propaganda, o fazer-por-si pelas manifestações obedientes, o individualismo pelo fuhrerismo. Creio, tudo o indica, que hoje se está a reproduzir essa fatalidade.
As pessoas andam com medo, combalidas e angustiadas; em suma, as pessoas não gostam da liberdade nem sabem o que ela vale.



Das ist Berlin

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