18 junho 2008

O deus elefante




Num mundo absolutamente diverso, se pergunto a um adorador do Deus Único se presta culto ao Deus de Moisés, responde-me, quase irritado, que Phra Jao (Deus dos Céus) só há um e chama-se Shiva. Resolvido o equívoco, pergunto-lhe se acredita no Céu e no Inferno. Diz-me que não, mas acrescenta acreditar na reencarnação, nos espíritos e em demónios. Ainda não satisfeito, pergunto-lhe se o Iluminado - Buda - deve ser adorado como um deus ou seguido como um mestre. Diz-me que Buda não é deus, nasceu homem e homem morreu, muito embora, ao nascer, pudesse andar e falar com eloquência de predicador. Olho para um canto da sala: uma colorida e simpática estatueta de Ganisha/Ganexa/Ganesha, filho de Shiva e Parvati, pede-me que o intrometa na conversa. É a ele que os siameses oram em momentos de aflição, pois Ganisha é o vencedor dos obstáculos, o propiciador da fortuna e do sucesso. Os seus adoradores dão pelo nome de Ganapatyas e os budistas, sem Deus, tomam-no de empréstimo num adorável sincretismo que lembra o tempo distante em que os romanos frequentavam os templos das mais desvairadas religiões, sem nisso vislumbrarem a mais pequena nódoa de contradição. Estou em pleno mundo "ariano", em contacto com as fontes das religiões pré-cristãs . Politeísmo é assim mesmo: vários eixos, camadas de sagrado, uma distribuição razoável de esferas de acção das forças sobrenaturais, com igual peso para o simples descrédito, mas que aqui nunca se precipita do ateísmo. Não continuo a conversa. Lembro que o elefante branco é animal sagrado, que a bandeira do Sião entre 1850 e 1916 exibiu um elefante branco e que as guerras que os seus reis travam com Cambojanos e Birmaneses tinham por objectivo capturar alguns desses raros albinos.


Marcha das Crianças Siamesas (Rodgers/Hammerstein)

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