20 junho 2008

A força do Povo é a força do Rei


Pergunta-me um amigo por que razão não falo de política portuguesa. Que eu saiba, nada de especial acontece em Portugal desde o tremor de terra de 1755, pelo que nada há a escrever, comentar e prever. As coisinhas da política do campanário são tão pequenas que não deixam sulco, não apaixonam nem merecem atenção. Portugal fechou-se, definitivamente, no seu pequeno mundo: um mundo sem ideias, sem novidade e absolutamente vazio. Leio os blogues e tresandam àquela triste resignação - por vezes armada de cinismo, por vezes de indignação - que outra coisa mais não concita senão um desdenhoso virar de costas.

Aqui estou no meio de uma revolução. Há um mês, cansados de corrupção, tráfico de influências, desmandos, barganhas, compra de votos e caciquismo, o que de melhor há na sociedade tailandesa resolveu montar acampamento em frente da sede da ONU, com comício 24 sobre 24 horas pedindo a mudança do regime partidocrático, o fim da impunidade dos políticos e o julgamento dos tubarões que desvirtuam a democracia e a tornaram refém de um partidismo que insulta a liberdade. A geração que esteve na dianteira da revolução democrática de 1973 volta a sair às ruas. Quer democracia, mas uma democracia que sirva o povo e não aquela facécia de democracia que engorda o gansterismo, que protege e imuniza os corruptos e corruptores e se preparava - tudo o previa - para desferir um golpe mortal na instituição monárquica, que é, como aqui por várias vezes expliquei, o grande agente de conciliação e unidade nacional. São milhares, dezenas de milhares de cidadãos fiéis ao Rei, envergando camisolas amarelas, agitando bandeiras nacionais, cantando em plenos pulmões o hino real e as canções da guerra e da paz que são património da história do patriotismo thai.

Dizem as más línguas que o Rei estará por detrás da iniciativa. Discordo em absoluto. Os cidadãos que hoje se contam já por dezenas de milhares são a nata do país, não foram arregimentados, alimentados e trazidos do campo em camionetas. São professores e alunos universitários, profissionais liberais - médicos, advogados, empresários, arquitectos - militares, monges budistas, aristocratas, pessoas com elevada preparação cívica que se fartaram dos simulacros eleitorais, das chapeladas e da decomposição do sistema democrático, agora manipulado pelo dinheiro do ex-primeiro ministro Taksin - uma das maiores fortunas do país - que da sombra dá instruções ao governo chegado ao poder há meses. Invocam os defensores do governo que este é um governo legítimo, pois produto de eleições. Sabemos que tais críticas teriam cabimento numa democracia europeia, mas aqui a maioria que dizer, quase sempre, que o partido vencedor possui a maior e mais rica máquina de condicionamento. Este governo venceu as eleições no campo, onde o poder dos caciques é tremendo. Nas grandes cidades, ou entre a classe média, é simplesmente desprezado.

A democracia por que clama a mole de manifestantes é a da soberania do povo, moderada pela soberania real. Nesta multidão não há as "forças fáticas" do aparelho burocrático e dos interesses instalados. Os interesses instalados - o poder do dinheiro, da banca, do imobiliário e da especulação - invocam a legitimidade do governo. Coisa estranha esta a do dinheiro querer falar em nome do povo, sobretudo daquele povo pobre e ignorante que da plutocracia jamais mereceu qualquer movimento de solidariedade. A única força que neste país deu dignidade ao povo chão, que a ele se consagrou, lhe deu escolas, hospitais, formação profissional, dignidade e patriotismo foi o rei, que desde há 50 anos é o baluarte dos direitos dos pequenos. É para ele que se voltam os tailandeses para, uma vez mais, restaurarem a união que, no passado, foi o instrumento da paz e da unidade.

Querem que fale de política portuguesa ? Comentar o quê ? E consideramo-nos um povo maduro. Em Portugal, este movimento democrático seria impensável. Com as primeiras chuvas, com a fome a apertar o estômago, a manifestação dissolver-se-ia espontaneamente para a bacalhoada do jantar. Aqui dura há um mês ! Diferenças ...


Phleng Sansoen Phra Barami (hino real da Tailândia)

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