22 junho 2008

Faz hoje 67 anos que a Europa se matou



Uma diplomacia de capa-e-espada, com simulações, kriegspielen, amadores e ideólogos de poucas leituras, muito atrevimento e absoluta incapacidade para discernir os riscos. Um regime que cavou um desastre económico chamado autarcia e que para fugir à derrocada se atirou para uma guerra que contrariava todos os avisos que o bom-senso aconselharia. Uma percepção da geo-política mundial feita de palpites, intuições e lugares-comuns, à mistura com astrólogos, delírios wagnerianos e outras bizarrias nascidas nas noitadas de insones. Faz 67 anos que a Alemanha pequeno-burguesa de Zés Ninguém cheios de si resolveu atacar a Rússia depois de já haver declarado guerra às mais poderosas forças materiais e culturais que comandavam o planeta. Uma rematada idiotia cujo preço todos pagamos, no passado, no presente e no futuro.

O povo alemão, nas suas grandezas e defeitos, não merecia, decididamente, que uma seita de lunáticos o atirasse para tal tragédia. Por mais que queiramos discernir a inteligibilidade de tal decisão, fenece-nos a capacidade de a encarar como um dado da razão, mas como um capricho, uma infantilidade e uma demonstração de quão perigosa pode ser uma decisão política de tal magnitude quando entregue a amadores. Como sempre, dado do ethos germânico, soldados da frente e a população bateram-se com uma valentia, um sacrifício e um desprezo pela morte dignos de um povo grande, que foi cérebro e coração da Europa até ao triste dia em que um homem problemático confiscou a inteligência, baniu o sentimento e os transformou em propaganda e fanatismo.
A Operação Barbarossa foi planeada com detalhe pela mais qualificada estirpe de militares oriundos da velha escola prussiana, aplicados leitores de Klausewitz e homens de grande capacidade profissional. Porém, desde os primeiros dias da invasão, um ex-cabo impôs-lhes alterações ao plano inicial. As decisões então tomadas pelo OKW transformaram a invasão numa sucessão de mudanças de ritmo, objectivos e calendário, a tal ponto que a partir de Setembro de 1941, com a guerra praticamente decidida, Hitler resolveu desviar o centro de aplicação das operações, considerando Moscovo objectivo secundário. Concomitantemente, os alemães, que haviam sido recebidos como libertadores, deram aos russos um tratamento igual ou pior que aquele que de Estaline haviam recebido, legitimando o ressurgimento do patriotismo russo e oferecendo de bandeja a Estaline uma "guerra patriótica". Não há na história militar nada que se assemelhe a tal campanha, que se iniciou com tremendas vitórias e acabou atolada na lama, enregelada pelos nevões e decomposta pela incessante guerrilha. Depois, foi o lento, sacrificado e doloroso apagamento gradual do exército alemão, sempre bem comandado, sempre valoroso, mas sabotado por um homem de capacidades diminuídas que tinha o condão de hostilizar a inteligência. A história todos a sabemos. Depois de Moscovo foi Estalinegrado, depois Kursk, depois e eclipse. O nacional-socialismo empurrou a Alemanha para a mais completa e inapelável derrota. Quando tudo estava perdido, mas quando ainda era possível negociar, saindo de cena e entregando-o a quem poderia ainda fixar os limites da derrota, quis mais: quis levar toda a Europa para a vala comum. E conseguiu-o.

Se o Euro-mundo acabou, se os EUA e a URSS entre si repartiram esferas de influência e por todo o lado a Europa se retirou das sete partidas do mundo; se a esplêndida sociedade europeia dos anos 20 e 30, com aquele toque de grandeza faustiana, se perdeu de vez, rendendo-se à risível "cultura" sem cultura, deve-o a Hitler. O homem dizia em 1933, com toda a razão, que dez anos após a sua ascensão ao poder a Alemanha estaria irreconhecível. Profético. A Alemanha, 10 anos após o advento da pequena religião, estava transformada num monte de ruínas. As bibliotecas, os palácios, as universidades, o casco medieval dos burgos, mais as catedrais, os laboratórios, os hospitais, as estações, os aeroportos - tudo o que fazia da Alemanha a maravilha de uma Europa antiga mas actuante e na vanguarda do pensamento, das artes e da ciência, acabou.

Faz hoje 67 anos que a Europa se suicidou.


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