24 junho 2008

Bloco Central



Dizem as boas e as más línguas que para 2009 está marcado novo encontro de governação entre o PS e o PSD. As versões gémeas do Partido Revolucionário Institucional (México) e do Partido Democrático Liberal (Japão) têm estado no poder desde 1976, ou seja, lá estão desde o tempo em que eu ainda usava calções, acreditava que havia pirâmides em Marte e lia com avidez o Júlio Verne. Os anos, os lustros e as décadas passaram, fiz o liceu e a universidade, mudei de casa duas vezes e por duas vezes mudei de país, mas eles estão lá desde 76. Vivi sob Soares, Carneiro, Balsemão, Mota Pinto, Cavaco e Guterres, mais Barroso. Sempre ouvi dizer que "agora o país ia mudar", que o futuro estava de portas abertas, luminoso, oferecendo a Portugal riqueza e reconhecimento. Assisti à betonização, ao surto das croissanterias, dos montes alentejanos e dos jipões, à ascensão dos jovens de colarinhos brancos brincando às bolsas, às novas urbanizações e às gestões e marketings. Sou do tempo dos bip's, como também o são os farfalhudos salvadores de pátrias que se congestionam às portas das duas únicas empresas empregadoras que não sofrem de problemas de insolvência, salários em atraso e limitação orçamental, competição estrangeira e listas de excedentes. A coisa dura há 10.000 dias - um número bíblico - e parece tão imenso como o tempo geológico em que se formaram os mares e oceanos, se fendeu a Pangeia e os primeiros líquens iniciaram a corrida que levaria ao cérebro de Einstein. Em Portugal, esses 10.000 dias permitiram coisas espantosas, à cabeça das quais pontifica um partido com duas bocas, quatro braços e quatro pernas, dois nomes e cérebro algum. Perdemos todas as corridas. Perdemos a corrida para a Europa, a corrida para a industrialização, a corrida para a emergência de uma sociedade civil não artificial - porque a que por aí existe se vai parecendo cada vez mais com uma indecente barganha de dinheiros, favores e isenções - a corrida para a justiça, para saúde e para a educação. Ficou só o Bloco Central mais os futebóis, essa religião civil que vai lentamente tomando conta dos afectos, dos restos de lucidez e de bom-senso inerentes à espécie humana. Outros fogos surgiram, aqui e ali, como foguetório de entretenimento em momentos em que o comatoso recobrava o espírito. Coisas importantíssimas como os crucifixos nas escolas, as interrupções da gravidez, as drogas duras e moles, as regionalizações, as coincenerações e outras magnas tarefas do razonamento filosófico deixaram de lado coisas insignificantes como a reforma do Estado e da tributação, a reforma da educação, a formação do civismo e a discussão dos futuríveis. Estamos em coma há 10.000 dias. E aí se perfilam mais 10.000.

É assim que estamos a calcetar, com paciência de coollie, o caminho para o fecho de portas.

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