26 junho 2008

Afago para espíritos deprimidos: António Feijó e o Sião

Príncipe Chirapravati, um dos quatro príncipes siameses enviados para estudar na Europa
Não sei se vale a pena bater na cegueira e na surdez dos portugueses. Lembrei-me, logo, das Cartas Íntimas de António Feijó, o poeta-embaixador que desempenhou cargos no Brasil (não imaginem o que ele diz e conta a respeito dos brasileiros e dos patriotas portugueses que à época por lá viviam!). Passou depois a Estocolmo, onde foi Cônsul, depois Encarregado de Negócios e mais tarde Ministro Plenipotenciário, com igual representação em Copenhaga; escreve o bom e o bonito sobre a classe política nacional. O livro recolhe as cartas encontradas no espólio do irmão José Feijó, que foi advogado em Viana do Castelo. São cartas curiosas, carregadas de afecto e de queixas, notáveis ainda pelas considerações que tece a propósito da política nacional relatando, mesmo que ao de leve, as cunhas - a que ele também não foge - os compadrios, as quadrilhas, aldrabices, burrices, tubarãozices e outras coisas pequenas. Lá encontrei uma referência ao Sião na carta n.º 122 (CXXII) datada de 3 de Agosto (sem indicação do ano) em Estocolmo.Transcrevo-a por me parecer interessante, anotando que o Feijó acabara de chegar da Dinamarca onde fora cumprimentar os Príncipes Herdeiros que comemoravam as núpcias de prata. Creio tratar-se do depois Rei Frederico VIII c.c. Luísa da Suécia e Noruega, casamento realizado em 1869, o que atira a carta para 1894.

"Estive em Copenhague onde onde fui para representar o Governo nas núpcias de prata do Príncipe herdeiro. Regressei ontem para assistir ao Congresso dos Americanistas de que sou membro por parte do nosso governo. Já ando cansado de festas e contradanças. É um trabalho mais fatigante do que o de carpinteiro.Em Copenhague houve festas interessantes, sobretudo para mim. Nunca vi tantos príncipes juntos. Além dos do país, que são inumeráveis, havia .... um Príncipe Oriental, com um séquito luzido, irmão do Rei do Sião. Numa ceia no Palácio Real, este Príncipe veio ao pé de mim e disse-me a seguinte frase: bebo à sua saúde, como representante do povo europeu de quem primeiro se ouviu falar no Oriente! Comoveu-me por tal forma esta frase, no meio das nossas misérias actuais que tive um desejo louco de lhe dar um beijo. Nenhum Príncipe europeu era capaz de ser mais amável! Isto devia contar-se nas gazetas porque consola a gente".

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