03 maio 2008

Riqueza e felicidade


Tenho a sorte de poder viajar, não tanto como gostaria, mas de o fazer com a regularidade que as minhas parcas possibilidades oferecem. Se detivesse o segredo de Midas não parava, como o judeu errante condenado a jamais se abrigar sob o mesmo tecto duas noites consecutivas. Infelizmente, os mil lugares que teria de visitar antes de morrer, resumem-se a vinte ou trinta cidades, monumentos e ícones considerados relevantes para a humanidade: uma dúzia na Europa, outra meia dúzia em África, uma mão cheia na Ásia Oriental e no Sudeste-Asiático. De fora ficou, sempre, o "Novo Mundo", o qual, para além das pirâmides do México, das construções ciclópicas dos Andes e um ou outro postal da imponente obra da natureza, nunca me seduziu. A América, do Canadá ao Chile, parece-me cruel caricatura de tudo o que o engenho humano foi capaz de erguer. É demasiado nova, despida de antiguidade, deserta de espírito e carregando memórias terríveis de escravatura, genocídio e brutalidade. O plástico, o pastiche, o bricolage, o faz-de-conta que ali foi fingindo autenticidade e passado, não me seduzem de todo. Há quem tenha uma escondida admiração pelo dinheiro e pelo poder que encerra. Há quem se deixe seduzir pelas luzes dos anúncios, pelos espadas e pelos menús capazes de fazer vergar o mais empedernido anacoreta. Eu, pobre e feliz, nunca comprei um guia turístico, nunca pernoitei nesses grandes templos do luxo e nunca comprei bilhete que não fosse na "turística". Em mim, tudo é utilitário: comer para não morrer, ler os autores necessários em edições de papel condenado a galopante encarquilhar, não fumar Havanos, não praticar golfe, não ter carro, nem telemóvel. Hoje, pelo almoço, proporcionou-se conhecer um desses homens tocados pelo delírio dos milhões. Uma figura simpática, um americano cheio de boas intenções para si, para a sua família, para seus empregados e restante humanidade. Falou de si, da sua ascensão, da fortuna que foi acumulando. No fim, perguntou-me o que estava a fazer na Ásia. Disse-lhe: "estou a escrever um livro". Olhou-me, parou e retorquiu: "meu amigo, se tenho inveja de alguma coisa nesta vida é daqueles que fazem as coisas sem se preocuparem com o resultado. Gostaria de voltar atrás, de estudar línguas, de tirar um curso e poder escrever um livro sobre aquilo que sempre me fascinou: as flores". O magnata passou quarenta anos a armazenar dólares, é adulado por políticos em busca de mecenas, tem acesso ao que de mais sofisticado a nossa civilização material pode oferecer, mas sente-se vazio. Sabe que daqui a dez, quinze anos, desaparecerá e que o dinheiro será disputado por filhos, netos e bisnetos. Dele nada restará.
Sugeri-lhe que fizesse algo para si. Disse-me: é tarde demais, sou um escravo da engrenagem que criei.
A América ainda não se deu conta que a sua passagem pela história transporta a aflitiva e dilemática escolha entre a fruição do dinheiro e a memória que deixará ou não deixará. Temo que dela pouco ou nada reste. Pena, pois o Ocidente, hoje, resume-se à América.

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