
A vida portuguesa é tão rica de aspectos e pletórica de emoções que até suspende a respiração para discutir a magna questão de um inofensivo cigarro fumado por Sócrates a bordo de um autocarro voador. Tenho para mim que a infracção dessa moraleira, falsa e controleira tabacofobia militante deve ser aplaudida, sobretudo por quantos, fumadores ou não fumadores, se terão apercebido que por detrás do lobby anti-tabagismo - que não verte uma lágrima ou um lamento pelos milhões de pessoas mortas todos os anos pelo efeito devastador dos escapes dos automóveis - se encontram, não preocupações higiénicas e médicas, mas a simples pulsão totalitária de proibir, cercear, denunciar e humilhar quem se atrever cometer o pequeno acto de acender e fruir um cigarro. A guerra contra o tabagismo não é coisa que puna governos - que tributam pesadamente o consumidor - e tabaqueiras. Estes [governos e tabaqueiras] exibem hipócrita preocupação pela sorte dos consumidores, mas sabendo que o vício da nicotina é tão natural para o fumador como o vício de beber água, sangram-no até à medula com taxas. Já o mesmo não se passa com o nefando automóvel - o vício de não andar - pois aí estão as petroleiras, as todo-poderosas indústrias automobilística, de construção viária e de sobressalentes, mais as seguradoras, os interesses imobiliários - os parques de estacionamento nas grandes cidades realizam lucros líquidos superiores à indústria farmacêutica - e, até, as tecnologias de gestão do tráfico.
Sócrates subiu alguns pontos na minha consideração. Afinal, o seu acto pode ser interpretado como um desafio à lei verdadeiramente imbecil que pretende fazer crer não haver fumadores neste mundo. Sabemos - as estatísticas estão à vista - que todo o prevencionismo por aí à solta anda apenas fez mudar os hábitos dos fumadores. Onde antes havia fumadores nas ruas, cafés, repartições e cinemas, hoje há os mesmos fumadores escondidos nas suas casas e varandas, com um cigarro na mão direita e uma pastilha elástica na esquerda pronta a dissipar a infamante marca do terrível vício. Eu, que tal como Sócrates, sou fumador e desportista, não vejo contradição em aceitar desporto e cigarros como fontes de prazer. Bravo, Sócrates !
Difícil será tentar explicar aos sacos imensos de carne e banha moralistas, que devoram num ápice 5.000 calorias de entremeada e orelha de porco e pesam muito, muitíssimo mais no orçamento das unidades de cuidados intensivos que os fumadores. A escalada moraleira-totalitária importada dos EUA há anos, está a atingir foros dignos dos mais sinistros momentos da loucura controleirista do século XVII, quanto os juristas, teólogos e moralistas se passaram a interessar, não pela sorte dos escravos, dos torturados, dos leprosos de sineta ao peito, mas pelos mais pequenos actos da intimidade individual. Concerteza já todos terão ouvido falar da Lei sobre o Pecado de Molicies de 1597, texto espantoso que visava punir o auto-erotismo. Já não falta muito para encontrar legislador interessado em reeditá-lo !

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