13 maio 2008

Nada na vida é a brincar

Há quem pretenda ver em tudo oportunidade para voltar aos calções, às espadas de plástico, aos revólveres de fulminantes e às acrobacias no ramo do limoeiro do quintal. Há quem acredite que ensinar os adultos a "reaprenderem" a magia do mundo infantil lhes garante a felicidade, a desinibição e a espontaneidade roubadas pelas borbulhas, pelo buço da puberdade e pelos primeiros ventos existenciais. A procura desesperada do Paraíso Perdido, quando praticada como doutrina antropológica e programa para as instituições que preparam os indivíduos para a assunção de responsabilidades perante terceiros é, mais que baldado esforço, um perigo para a segurança colectiva. Os Estados e as sociedades assentam em obrigações, deveres inculcados e irrenunciáveis privações e os indivíduos só o são se a tal se conformarem. Sabemos que custa, dói e por vezes há que pagar elevado preço pela maturidade. É por isso que os homens são desiguais: há os que investem no trabalho, no estudo e na obra e há os que vivem na procura insaciável de divertimentos. Ouvi ontem um desses pedagogos do facilitismo e do "ludismo" falar sobre experiências pedagógicas revolucionárias, em escolas onde se aprende a brincar e brinca aprendendo e onde até os professores se transformam, eles também, em alunos dos seus alunos. Claro está, o pedagogo-demagogo era homem dos seus 60 anos, da geração do Não à Guerra, do Make Love not War e do cannabis. Nasceu no boom económico do pós-guerra, teve o Estado algibeiras-sem-fundo a alimentar-lhe as lutas e pedradas no campus universitário, as férias pagas, o primeiro emprego aos trinta anos, os anos perdidos na universidade paga pelos contribuintes, o "rendimento mínimo", as bolsas, hospital de graça, subsídio de desemprego ou mesada. Aquilo foram trinta anos de forrobodó. Agora, o Ocidente está pobre, mas eles não aprenderam a lição; pior, transformaram-se em líderes e dominam o Estado, o ensino, a saúde, a assistência social e a comunicação social, são amigos dos banqueiros, influenciam os governantes e vão, alegremente e a brincar, hipotecando o nosso futuro.


Quando cheguei à Ásia, inscrevi-me numa escola de línguas asiáticas adepta de tais brincadeiras. Claro, a instituição é americana e os senhores que dela vivem são naúfragos da geração de ouro. O lema inscrito no portal, flamejante como uma mentira, rezava: aqui não há testes nem avaliação; aqui brinca-se e é a diversão que ensina. Ao fim de três meses dei comigo a questionar-me sobre os resultados de tal pilhéria. Não havia aprendido nada e só me martelava a cabeça o dinheiro gasto e as horas diárias ali enterradas. Mudei. Em dois meses passei a falar com desembaraço uma língua asiática, não pelo método faz-de-conta, mas à custa de noitadas de vigília, gramática, exercícios de escrita e pronúncia, testes e exame final. O curioso de tudo isto é que sinto uma alegria incontida, uma curiosidade crescente pela língua desta terra na descoberta da sua inteligência, das suas subtilezas e até equívocos intencionais. O estudo - como qualquer empresa - custa, mas só deste sacrifício retiramos proveito pessoal que a sociedade retribui com o reconhecimento pelas canseiras. Moral da história: nada é a brincar, nem o jogo do Monopólio, que é cruel batalha pela posse do tabuleiro. Jogamo-lo com os amigos, com gargalhadas e um copo na mão, mas não deixa de ser uma frenética luta pelo sucesso !

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