26 maio 2008

A muralha açafrão





Os budistas theravada pouco impressionados ficaram quando, a partir do século XIV, se iniciou a pregação muçulmana, a que sucedeu, cem anos depois, a evangelização católica do sudeste-asiático pela mão dos missionários portugueses do Padroado do Oriente. Aqui na Tailândia, hoje como ontem, muçulmanos e cristãos jamais os encontramos entre os siameses, mas entre minorias étnicas submetidas a Banguecoque. São malaios, karens, shan, mhong e chineses, mas raramente siameses.


Durante muito tempo acreditei que tal facto se devesse à incapacidade que os thais demonstram na aceitação das religiões reveladas, à indisfarçável indiferença dos budistas pela existência de Deus e de um ordenamento que não brote dos dados imediatos da natureza e da consciência. Perguntava-me um amigo, budista, que diferença faz saber se Deus existe ou não, se tal busca requer a aceitação pela fé daquilo em que a nossa razão vacila e recusa. Acrescentou: se tens a percepção natural do bem e do mal, se o bem e o mal se manifestam no tempo e na vida dos homens, se estão inscritos na alma de cada homem e fazem parte dos valores das sociedades, por que não aceitá-los como evidências sem procurar, em vão, a mão que supostamente os inscreveu ?

É estranho que, não possuindo metafísica nem transcedência, o budismo haja conseguido guiar mais homens no caminho da rectidão que outras religiões que, de tão exigentes, parecem mais contentar-se em assinalar perigos e culpas que ensinar-lhes o caminho do aperfeiçoamento, do compadecimento e do amor. Esta gente é absolutamente responsável pela sua vida e não tem a respaldá-la a absolvição pelos actos praticados. Aqui, não há tribunal celestial, mas há uma contabilidade de justiça cósmica que cada homem transporta. O facto dos budistas viverem no receio de pagarem, através da reencarnação, pelos maus actos praticados, impede-os de roubar e matar. Um avassalador estudo feito entre a população das penitenciárias tailandesas confirma-o: os crimes de sangue são, habitualmente, cometidos por muçulmanos, hindús e cristãos.

Se os thais mentem culturalmente, isto é, se mentir é prática corrente, fazem-no marcados por longa tradição de servidão. Dizer a verdade é, normalmente, uma manifestação de rusticidade e agressividade. Assim, os thais jamais exprimem o que pensam, falam em circunlóquios, raramente dizem sim e nunca dizem não. É uma sociedade assente num delicado e quase insuperável jogo: quem tem poder e dinheiro protege, com paternalismo e bonomia, os inferiores; quem não possui poder e dinheiro procura um protector. A possibilidade de movimentos sociais reivindicativos neste país é uma quase impossibilidade. Aqui, o marxismo, só conseguiu recrutar a inteligentzia ocidentalizada e o liberalismo e a democracia ainda são vistos como agente de desagregação da unidade social.
Não obstante a mudança se operar a ritmo acelerado, a sociedade tailandesa parece ainda fortemente marcada pelos ensinamentos e práticas budistas. Não é de estranhar, pois, que em Banguecoque, cidade enorme - das maiores do mundo - nos encontremos diariamente com centos de monges budistas mendigando o arroz, os frutos e outras vitualhas necessárias aos templos, que os jovens ainda procurem, pelo menos uma vez na vida, integrar a vida monacal e que o ano seja marcado por inúmeros feriados e festividades budistas aos quais a população atribui relevante significado. O budismo está inscrito nas mais pequenas coisas do quotidiano. Não há casa que não possua um altar votivo, há estátuas de Buda um pouco por toda a cidade e a literatura sapiencial é das mais consumidas pela população.
Há dias, saíndo de Banguecoque, fui confrontado com o tremendo poder integrador do budismo. Cheguei a uma aldeola sem nome e ouvi mantras e cânticos. Aproximei-me do modesto templo entre os arrozais e dei de caras com centos de miúdos togados. Eram crianças de 9, 10, 11 anos, no fim das férias escolares. Os pais, em vez de os mandarem jogar futebol para o campo pelado da escola, submeteram-nos à iniciação doutrinal e entregaram-nos por três semanas à guarda dos monges. Aqui estava a prova da "quadrícula" budista. É claro que, com tal socialização e doutrinação, estes miúdos crescerão no respeito pelo legado tradicional e nunca sentirão qualquer vazio que os leve a buscar a verdade noutros quadrantes. Tudo aquilo me fez lembrar a velha Europa de há 300 ou 400 anos, onde, como afirmava um historiador francês, a impossibilidade da descrença era absoluta. Depois, vieram os libertinos e a descrença alastrou. Hoje, só se acredita na sorte do totoloto !

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