22 maio 2008

Esplendor do vazio


Algumas das acusações comumente atiradas ao PSD como pedras de arestas cortantes asseveram ser aquele partido um deserto ideológico, um vazio de convicções, uma cesta de gatos esfaimados pelo poder, um partido não tocado pela graça da inteligência e respeito pela cultura, um partido de merceeiros e pequeno-burgueses ávidos de reconhecimento social, uma contradição do PREC que se arrasta penosamente há trinta e tal anos, o rosto do conservadorismo e do provincianismo envergonhados, o ponto de encontro de desclassificados e oportunistas oriundos da extrema-direita à extrema-esquerda festiva - onde ex-MRPP's, ex-PC's, ex-ANP's e ex-Jovem Portugal substituem as premissas de juventude pela contabilidade de lugares à mesa dos orçamentos do Estado, das regiões autónomas, do poder local e até a União Europeia - um partido incerto, errático e caudilhista, com sigla comercial com extraordinária capacidade de mudar de acordo com as estações, as modas e o trend.


Tudo isso pode ser verdade, como a actual campanha para liderança do partido teimosamente parece querer confirmar. Não há maior inimigo do PSD que o PSD, como não há maior amigo do PSD que a sua fascinante capacidade de não-ser coisa-alguma e ser, sem tirar nem acrescentar, a imagem da sociedade portuguesa e dos portugueses, daquilo que julgam ser mas não são e daquilo que não são mas parecem ser. Confesso jamais ter votado nesse partido, mas também confesso que por ele sinto um misto de repugnância e simpatia, pois ali há gente com a qual me identifico sem querer apurar quais as razões que me levariam a simpatizar com Santana Lopes e com Manuela Ferreira Leite sem jamais lhes ter lido as obras completas, sem saber se já leram um livro, se saberão localizar no mapa a Suazilândia, se terão vida interior, se seriam pouco ou mais do que são se a vida política os não houvesse atirado para ribalta dos noticiários.


Gosto de uma certa dose de bagunça, pois sempre desconfiei do rigor afivelado, das ideias excessivamente alinhadas, dos programas na ponta de língua e na coerência extrema, pois tais atributos, a existirem na política - que é coisa que detesto, escola de crime para criminosos sem atrevimento - têm, entre nós, triste tradição de teimosia que leva a desastres históricos ou de fundamentalismo e ortodoxia absolutamente irreconciliáveis com a trepidante e mutável natureza da actividade política. É por tudo isso que acompanho à distância os sucessivos rounds que se travam pela conquista de um lugar que não assegura dividendos. Ser líder do PSD, ou querer ser líder do PSD neste momento, é coisa que só diz respeito ao ego de quem se atira para a fornalha, pois é coisa certa que Sócrates ficará no poder pelo menos até 2011. Querer ser líder do PSD é uma carga de trabalhos, cabelos brancos e arrelias. Espanta-me que Ferreira Leite, que é uma senhora - coisa rara na vida política portuguesa, cada vez mais dominada por ralé - tenha a coragem de se lançar em tal empresa. A fazer fé nas suas palavras, fá-lo por patriotismo, coisa rara no PSD, nos partidos em geral, bem como entre os portugueses. Se assim for, está salva a honra do convento !

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