31 maio 2008

Encurralados


Uma tarde longa e quase dolorosa fora de casa, mergulhado no vozerio da multidão que invadiu os grandes espaços comerciais para os saldos de fim de estação. Nada comprei. Aqueles milhares de mãos, afanosas como tentáculos, apalpando tecidos, virando e revirando peças, atirando-as para um monte logo revolvido por dúzias de outras mãos, deixaram-me exausto. Incomoda-me estar no meio de tanta gente, tanto cacarejar e tanta cobiça do inútil. Incomoda-me, sobretudo, o deus multidão, que parece agir com uma inteligência de amiba, sem freio nem fim, numa sopa de criaturas cujas vidinhas se parecem satisfazer com coisas pouco maiores que ervilhas. O consumismo, o ter em formato pequenino, o querer para si como afirmação de existência, é uma praga; mais, o consumismo como entretenimento para um mundo sem alicerces, vai dar cabo de tudo. Quando o petróleo acabar - diz-se que 2/3 de tudo o que temos provém dos malditos hidrocarbonetos - vamo-nos virar outra vez para as madeiras; ou seja, acabamos com o que resta das florestas. De facto, se não há que hesitar entre a penúria e o miserabilismo esfarrapado do socialismo e o capitalismo, este último parece ser, absolutamente - com a sua veneração pelo crescimento e pela erosão dos recursos naturais - uma péssima solução para o futuro. Estão a ver os meus amigos um bilião de indianos com dois popós, seis aparelhos de ar condicionado em casa, máquina de lavar a roupa e outra para a loiça, mudança de tv's, dvd's e pc's de dois em dois anos, mais dois jornais diários, três revistas semanais, despensa a abarrotar de bolachas, sopas instantâneas, garrafeira, mais shampoos, sabonetes, loções, seis ou sete pares de sapatos (ou seja, sete biliões de sapatos deitados ao lixo de ano e meio em ano e meio) ? O mundo mete medo !
Quase me rendo ao velho malthusianismo e aos negros presságios de Paul Leyhausen.

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