01 maio 2008

A doce pinderiquice


O DN titula: os portugueses estão a comprar menos pão e menos leite. Corrijo: os portugueses estão a comprar menos de tudo e regressam, placida e envergonhadamente, àquela pobreza austera e resignada que caracteriza as sociedades sem futuro. Tudos lhes foi dito ao longo dos últimos trinta anos: que eram ricos, finalmente, "os mais pobres entre os ricos, mas ricos mesmo assim"; que eram europeus, que se haviam libertado de séculos de parcimónia; que eram civicamente adultos; que lhes estavam garantidos carro, duas casas, férias anuais, crédito sem fim; disseram-lhes que as portas do mundo lhes estavam franquedas e, para o provar, mostravam-lhes Guterres, Amaral, Barroso e Mourinho. Tudo se dissipou. Vou cotejando a crónica dos noticiários e apercebo-me do estado a que chegou o país das "novas oportunidades", do "empreendedorismo", "dos jovens empresários", "das novas empresas" e da "excelência". Um pesadelo cansado, com vincos de exasperação na comissura dos lábios, com funcionários cansados e vigiados, denúncias e processos disciplinares, polícias maltrapilhos e juízes resignados e impotentes entretendo-se em macaquear a habitualidade da justiça e da segurança em que já ninguém acredita. Assim também já esteve Portugal há muito, muito tempo. Sabemos como terminou a aventura da incompetência desses tempos. As "democracias latinas" são as maiores amigas dos ditadores !
"Venda-me, por favor, duas carcaças, 50 gramas de manteiga, 20 gramas fiambre e 1/4 de litro de leite".

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