11 abril 2008

O discreto charme do colonialismo




Este país não foi ocupado e colonizado, nem se converteu em protectorado, não teve um "residente" estrangeiro ditando ordens nem viu hasteda bandeira que não fosse a sua. Contudo, não se fechou teimosamente, esperando a retaliação certa da boca dos canhões das canhoneiras ou o crepitar das armas de repetição. Serviu-se de um estratagema. Como Estado-tampão entre a Indochina Francesa e o Raj britânico instalado na Índia-Burma e na Malaya, fez de cordeiro entre o leão e o agressivo galo, cedendo a um para inveja do rival, enquanto ia afagando o orgulho de um e outro. Assim se manteve, quase de cócoras, durante meio século, entre 1851 e 1900. Sabendo que o imperialismo se nutre de negócios e que na ordem imperial são os cavalheiros dos bancos e das oportunidades que fazem a agenda da diplomacia, da guerra e, até, dos mais nobres sentimentos filantrópicos - "acabar com a escravatura", "acabar com os vestígios do despotismo", "levar as luzes, a ciência, a medicina e a tecnologia aos bárbaros" - resolveu travestir-se em obediente aluno. Abriu portas aos gananciosos que ditam ordens e espalham presentes entre os políticos, cedeu-lhes iniciativa e monopólios na banca, nos transportes, na construção de vias de comunicação, cobriu-os de medalhas e casas apalaçadas, fê-los sentar-se à mesa do Rei e até lhes atribuiu títulos de nobreza. O Sião sobreviveu à era do Euro-mundo, mas mudou tanto que passou a assumir o seu filo-ocidentalismo como coisa do seu sangue. Passeando por Banguecoque, vou fotografando os vestígios dessa sociedade da Belle Époque em que os estrangeiros, gozando as delícias da extra-territorialidade e dos "tratados desiguais", viviam nas sete quintas de um Oriente que os tratava como pequenos deuses, entre negócios da China, drogas de Burma, tecas de La Na e encomendas de fazer corar Crésus. Mas o Sião mutilado, aluno exemplar e cumpridor, com os trabalhos de casa irrepreensíveis e assiduidade sem reparo - o Sião que se fez capitalista e até constitucional, que aboliu a servidão e fez dos camponeses cidadãos com partidos e tudo - fez-se forte com a provação e é hoje, passada a era europeia, um dos principais parceiros dos EUA. Lição: os países devem vender a alma ao Diabo, se tal se impuser como condição para a sobrevivência. O Sião mudou quase tudo, mas secretamente não tocou no essencial. Este país continua a viver segundo o ritmo do pensamento do seu Rei e os jovens continuam a afluir aos templos para a tonsura monacal e a mendicância que o trajo açafrão impõe, os altares continuam incandescentes com tanta vela e tanto incenso e pela manhã o país inteiro põe-se de cócoras para rezar pelo seu chefe. Há negócios, há farangs investindo e vivendo como nababos, há multinacionais em cada esquina, mas a Politéia mantém-se centrada no Dharma budista. Nós, Portugueses, seguimos o caminho inverso: tudo fizemos para deixarmos de ser portugueses no essencial e provincianamente investimos no acidental. É por isso que chegámos aos umbrais desde milénio sem fé no futuro, sem respeito pelo passado e odiando o presente.

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