19 abril 2008

Custa dizê-lo


Com enfado, quase alheamento e perspectiva distanciada que tenho das coisas da politiquice portuguesa - decididamente matéria que há muito se esbateu das minhas preocupações - registo a saída de Menezes da liderança do PSD como uma nótula de rodapé, insignificante como quase tudo o que vai acontecendo no sistema político português. O problema não é das pessoas, dos líderes e dos partidos. O problema é da atitude. Portugal gosta, cultiva, exacerba o facto acessório. Habituou-se a existir emerso no nada, não atentar no que realmente sustém e anima uma comunidade, viver no faz-de-conta e na ilusão que são as pessoas e não as ideias, a oratória e não o saber, as promessas e não as realizações que mantêm vivo um país. Por muito que nos doa, há que reconhecer sermos um caso perdido. Por muito que me custe dizê-lo - não vão acusar-me de liberal na acepção mais desmiolada - Portugal deixou passar os últimos quase 40 anos sem conseguir aplicar o receituário que fez de outras sociedades - tão pobres, tão periféricas e tão sem saídas como nós - modelos de riqueza, abertura ao mundo e envolvimento na vida global. A imobilidade do sistema é precisamente reflexo da incapacidade em conseguir a transição de um sistema estático para os riscos inerentes à modernidade, que rima com dinamismo e com cidadania empenhada. Falhámos na ocidentalização: continuamos uma sociedade fechada, minada pelo proteccionismo, pelo nepotismo e pelo clientelismo, dotados de uma burguesia sem nível nem horizontes e por superstições de grandeza e reconhecimento de status que há muito desapareceram em sociedades desenvolvidas. Não nos industrializámos, urbanizámos pela via da suburbanidade, não desenvolvemos competências específicas e excelência que nos permitisse lugar no mercado e no reconhecimento globais; não registamos crescimento económico e hibituámo-nos à caridade e ao parasitismo europeus, refastelados na bronca ilusão que a riqueza que não conseguimos realizar intra-muros se anunciará, sempre, como um maná. Falhados, refugiamo-nos na polemologia do futebol, do estafado confronto entre religião e anti-religião, nos inconsequentes e bizantinos debates meta-políticos que interpelam o povo-sábio para se pronunciar sobre questões de bio-medicina e bio-ética. E como não conseguimos realizar a felicidade material, vivemos os últimos dez anos entregues à prática justiceira da caça às bruxas em que o falso moralismo, o pieguismo e o espectáculo dos expostos no pelourinho das frustrações colectivas vai assumindo contornos quase mórbidos.

Menezes saíu. E daí ? Haverá decerto centos de mediocridades e insignificâncias que o possam substituir. O drama não é termos Betas como Menezes a liderar partidos. O drama é não haver alternativa alguma.

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