05 abril 2008

Cepticismo: por fim, Tennyson

Há muito que deixei de investir nas pessoas; corrijo, só nelas me aprofundo após prova de absoluta sanidade, atestado de serenidade, limpidez de intenções e coração limpo, urbanidade e lealdade. Em suma, abandonei em definitivo a idade em que, tardiamente, persistia em equivocar-me perante um sorriso, uma palavra amável ou um elogio. Os poucos amigos que tenho censuram-me o bisonho semblante, a falta de habilidade para o convívio, a sempre esperada recusa para um jantar, o aparente desinteresse pelas doenças e operações alheias, as conversas sobre terceiros [ausentes], a indisponibilidade para "engrupar", o gosto pelo isolamento. Posso falar durante horas, rir-me a bandeiras despregadas, brincar, anedotar e, até, fazer a rábula do palhaço, mas só o faço com quatro ou cinco amigos, familiares ou aquelas raras pessoas que, não sendo amigas, ainda me permitem obedecer ao conselho da intuição. Estou absolutamente convencido do desperdício da forma imediata do gregarismo - aquela para a qual nos empurra a solidão - bem como daquela chamada amizade que esconde um interesse, um negócio ou um pedido. Não fossem as poucas evidências em contrário, fiar-me-ia incondicionalmente na ideia de amizade dos asiáticos: os verdadeiros e únicos amigos são aqueles que transportamos desde a infância; os outros, não são amigos mas pessoas que recrutamos para objectivos de natureza profissional ou política. Assumo ser uma perda não poder franquear o coração e a confiança a tanta e tão boa gente que porventura pulula à minha volta, mas estou demasiado ocupado com o tempo que me resta para fazer qualquer coisa que desculpe a existência que fui arrastando. Descobri Tennyson, depois de me cansar da rudeza de Schopenhauer e do infantil egotismo de Nietzsche. Aquele homem de olhar distante e perfil bíblico parecia aguardar há muito que o visitasse. Foi um choque, como quem vai a um quiromante e na mesa do baralho de cartas nos contam tudo o que sabiamos mas não ousaramos ver. O cepticismo é, sem dúvida, uma bela escola !

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