03 abril 2008

Banguecoque: magia da música luso-brasileira do século XIX

A Embaixada de Portugal em Banguecoque foi hoje cenário para um magnífico recital de piano de Paulo Zereu, um virtuoso do mágico instrumento e amigo que finalmente revi após ano e meio. Sala replecta, com o corpo diplomático em peso, altas autoridades civis e eclesiásticas e muitos amigos de Portugal neste distante Sião para ouvirem os grandes compositores portugueses e brasileiros da passagem do século XIX para o século XX. Um repertório escolhido criteriosamente - Ernesto Nazareth, Heitor Villa-Lobos, Francisco Mignone, António Lima Fragoso, Vianna da Motta e Óscar da Silva - lembrando aos presentes a universalidade da música e a plena integração da cultura musical luso-brasileira nas coordenadas e correntes do seu tempo. À minha frente, uma holandesa esgalgada sussurrava a cada instante para a sua parceira: "isto é Lizst, isto é Chopin, isto é Satie, isto é Rachmaninov". Tive ganas de lhe perguntar se a língua destaramelada que fala é um idioma ou uma doença de garganta. Dei-me por contente ao verificar que a música clássica portuguesa e brasileira não se confinara ao reduto do isolacionismo, que transpirava as influências e estéticas do tempo e que é hoje tão audível como os trabalhos dos mais afamados ícones da música civilizada. Após o recital, o Embaixador de Portugal ofereceu a todos os presentes um CD editado pela Steinway & Songs, gravado na University of Assunption of Thailand e patrocinado pelas Embaixadas de Portugal e Brasil na Tailândia. Foi uma noite diferente, encerrada com o simpático convite do Embaixador Faria e Maya para um Porto de honra nos jardins do belo palacete da nossa representação diplomática. Ao terminar o beberete, a holandesa esgalgada, no meio de um círculo de convivas, parecia ainda procurar argumentos para minimizar a magia que persistia em largar o edifício. Velhos inimigos, peritos na arte da pirataria e do comércio, nunca por nós deixaram de manter o fogo velho de ódios que teimam. Aqui no Sião ficaram os filhos, netos e bisnetos dos aventureiros de Quinhentos e Seiscentos, ficaram as ruínas dos templos, as receitas gastronómicas e a lembrança do tempo passado das naus do trato, das lutas e guerras em que fomos, sempre, indefectíveis amigos desta gente. A música de Zereu fez lembrar essa marca. Pena é que nas Necessidades ninguém ligue a tais insignificâncias !


Heitor Villa-Lobos: Nesta Rua

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