15 abril 2008

As mil portas do inferno

Foram quatrocentos e quinze quilómetros de travessas em madeira assentes em balastro de pedra moída, carris em aço duro e eclisses, farafusos, nivelamentos e valetas, túneis escavados e monólitos em pedra rija despedaçados pela mão humana, clareiras abertas na densa floresta tropical sob um calor infernal, barracas, armazéns, casamatas e abrigos anti-aéreos. A obra durou vinte e sete meses e hoje dela não restam senão fragmentos engolidos pela natureza. Um trabalho de Sísifo e um monumento ao absurdo. Para ela trabalharam mais de 250.000 prisioneiros de guerra e populações da região arrebanhadas à força do chicote ou de um prato de arroz. Em nome da liberdade, de slogans anti-colonialistas e da promessa de um Círculo de Coprosteridade da Ásia Oriental, os japoneses cobriram esta áspera região da Tailândia de sepulturas, valas comuns e campos de concentração. Morreram cem mil, 40 por quilómetro e os sobreviventes, combalidos, minados pela malária, pela subnutrição e pela sede, marcados pelos vergões das chicotadas, terão passado o resto das suas vidas transidos por pesadelos. Foi este interminável sendeiro que percorri durante três dias, entre Kanchanaburi e a Passagem dos Três Pagodes, na fronteira do Myanmar actual, outro imenso campo de concentração.

A ponte sobre o Kwai - nunca dizer a Ponte sobre o Rio Kwai, pois Kwai significa rio - é o símbolo emblemático desse vão trabalho de Hércules. Uma ponte pequena, quase miniatural, sucessivamente destruída e reconstruída, que Pierre Boulle novelizou e David Lean passou ao celulóide com as inesquecíveis prestações de Alec Guiness, William Holden e Sessue Hayakawa (Coronel Saito). Nas cercanias, um "War Museum", propriedade de família chinesa enriquecida no tráfico das gemas preciosas da Birmânia, inacreditável amontoado de peças heteróclitas (de vestidos de gerações de misses Tailândia a relógios, grafonolas e cadeiras de barbeiro, caçarolas, moedas, cofres, estatuária votiva, revistas do coração) cobre a memória devastadora dessa tragédia coberta de ridículo. O sofrimento mudo da multidão sem rosto desaparecida não tem senão valor estatístico para as multidões que vão chegando em autocarros. São aos milhares: singapurianos, taiwaneses, japoneses, alemães e dinamarqueses, thais e malaios quase que se empurram para o lugar na fotografia. Vendedores de gelados, de duriões, frutas cristalizadas e refrigerantes lutam para conseguir o quinhão para o fim de semana que se segue. Pergunto-me se a vida humana terá algum valor e se a história não passará de uma interminável colecção de absurdos. No futuro, engolida a memória, a natureza reapossar-se-á do seu domínio e quando a ponte já não gerar lucros, as suas vítimas morrerão uma segunda vez.


O comboio - que sabiamente alguns povos "primitivos" viam como encarnação do demónio - marcou a geografia do mal ao longo do século XX. Foram os combóios que levaram o gado humano para o abate na guerra industrializada das trincheiras da Grande Guerra, foi de comboio que pela Rússia se espalhou o flagelo do comunismo, foram os combóios que permitiram a eficiente letalidade de Auschwitz, Treblinka e Birkenau. Nos carris do século em que nascemos está o segredo da era da maquinização. A locomotiva que ligava Banguecoque a Rangoon, um paquiderme enferrujado e mudo, parece incapaz de contar o que quer que seja das enormidades desse tempo de fogo e aço.

Chego após três horas de curvas e contra-curvas, floresta densa e sol abrasador à Passagem dos Três Pagodes, o limes tradicional do Sião, porta de entrada de todos os exércitos invasores a que o príncipe Damrong Rajanubhab amiúde alude no seu clássico Our Wars with the Burmese: Thai-Burmese Conflict 1539-1767. Foi por aqui que os birmaneses entraram ao longo de séculos em terras do Sião para as carnificinas destes Balcãs da Ásia. Um puzzle de povos privados de Estado, confiscados ora por Siameses, ora por Birmaneses e finalmente divididos a régua e esquadro pelos topógrafos e diplomatas britânicos nas conferências de delimitação de fronteiras. Mas essa é outra história - a dos povos privados de tudo - que noutra ocasião contaremos.

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