05 março 2008

Seis insignificâncias forçadas pelo Euro-Ultramarino


Só por se tratar do Euro-Ultramarino , sento-me com olhar parado em frente da pantalha procurando as seis insignificâncias exigidas pelo interrogatório na moda. Pelo teor, ficarão com a ideia (se bem que pálida) de quão estranho me surge tudo o que por aí é condição para viver e respirar. Até dou oito exemplos de mil outras enormidades.


- Nunca li O Sol, nem leio o Expresso, o Público e outro papel sujo de tinta que com tanto plástico, tanto caderno, caderninho, separata, embrulhinho e descartável vai inundando os caixotes de lixo daqueles 200.000 portugueses que ainda se sentem integrados na "comunidade da informação", se sentem civilizados, europeus e, por obrigação, claro, não desdenhariam um lugarzinho num partido, num governinho ou numa assembleia de notabilidades;


- Nunca ouço - recuso, detesto - os rocks em todas a sua florescente mediocridade cacofónica, esse detestável ruído que se desintegra após duas ou três audições. Para mim, a música acabou nos anos 50 !


- Nunca li a Lídia Jorge, nem o João de Mello, nem o Augusto Abelaira, nem o Mário Cláudio, nem a Maria Gabriela Llansol (é assim que se escreve?), nem a Teolinda Gersão (talvez me sentisse tentado se mudasse o nome para Tailandinha Gersão), nem o Nuno Júdice, nem o José Luís Peixoto e penso não ter perdido nada. Aliás, tal como o cinema português - atire a primeira pedra quem, de verdade e sem afectação, realmente se sente empolgado com tal ordália - é coisa chata, carregada de rodriguinhos, falsos intimismos e falsa profundidade.


- Fumo e bebo café com indiscritível prazer, mas não consigo estar perto de inveterados do álcool.


- Fico de pé atrás sempre que alguém se gaba por haver sido seminarista. Apetece-me de imediato perguntar-lhe por que não é padre !


- Abomino convites para conferências. Após as primeiras sílabas, deixo-me cair num quase torpor comático e desperto quando palmas imerecidas me sacodem de comezinhos sonhos de doçaria, praia, sensualidades várias e viagens que fiz ou acalento fazer.


- Raramente me deixo agarrar por "convívios", jantaradas, tertúlias, baptizados, casamentos e funerais. Parece-me que tudo se resume a chás, portos, carpideirice, falsa alegria/falsa dor, oportunidades de emprego, correntes de amiguismo e maledicência


- Detesto escumalha, com ou sem dinheiro, analfabeta ou catedrática, com "nome" ou sem ele. Olho para as centenas de pessoas que fui conhecendo ao longo de uma vida razoavelmente atribulada e apenas retenho dez ou doze por quem mantive respeito profundo, admiração e lealdade. Os outros, dissiparam-se como a bruxa de Oz.

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