09 março 2008

Marcha da indignação

Eu marcharia indignado contra um governo que teima em manter-se sem arrepiar caminho ante a vereda deslizante que leva à paralisia económica; marcharia espumante de indignação pela oposição abracadabrante que temos; marcharia até se me gastar a voz e romperem os sapatos contra a pobreza, o fechamento de horizontes e a frustração para onde nos atirou esta suposta democracia anémica, que suja e descredibiliza a liberdade; marcharia com a bandeira negra do desemprego, da fome, da violência e da impunidade dos gangues; marcharia contra a resignação que se instalou para ficar; marcharia contra a comunicação social venal, voluntariamente alheada do descaminho que levará a mais que previsível amok colectivo. Não sei se ainda há tempo para mudar no quadro da Constituição, dos partidos e políticos que persistem - não obstante os mais negros vaticínios - em aplicar e reaplicar programas, atitudes e ideias que são coveiras do nosso futuro. Os regimes, em Portugal, morrem de caquexia. Os médicos que o assistem estão tão doentes como o paciente. A desesperança de quem a tudo assiste estriba-se no reconhecimento da cobardia de quantos, conhecendo o desfecho, nada dizem. Portugal é, decididamente, um prodígio de sobrevivência. Conseguir viver tanto tempo com tão maus governante e povo tão impassível perante a sua própria desgraça é coisa rara, digna de figurar nos anais do sobrenatural.

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