18 março 2008

Frágil império


Os analistas mais avisados e os fazedores de prospectivas têm vindo a alertar para a eventualidade do cenário menos querido e apetecível para os investidores ocidentais no Eldorado chinês. A China cresceu demasiadamente rápido, a China não acautelou os efeitos de uma mudança social e cultural traumáticas, a China entrou, cedo de mais, em rota de colisão com a estrutura de uma economia global centrada no Ocidente, a China não teve tempo para realizar os ajustamentos políticos necessários ao desmantelamento do Estado comunista, a China não teve tempo para gozar o lugar de coqueluche, pois a emergência da Índia, a revitalização do Japão, a afirmação crescente do Brasil, da África do Sul e da Austrália estão a redesenhar novas esferas de influência regionais que lhe roubam a possibilidade de reconstruir o discurso anti-ocidental e constituir-se em modelo alternativo aos EUA. A China é vulnerável, não é una, padece de desequilíbrios demográficos gritantes e não estava preparada para a factura energética, ambiental e cultural que uma candidata a super-potência deve assumir. Acresce que a China, secularmente isolacionista, não se consegue envolver no quadro global, pois falta-lhe aquela perícia e sensibilidade para pensar para além das suas fronteiras. A desmazelada forma de pensar o mundo dos homens do dinheiro - sempres desdenhosos do estudo e da compreensão de fenómenos de longa duração - parece ter, a certo momento, triunfado. A China compra, a China exporta, a China compensa a baixa competitividade e produtividade das empresas ocidentais; logo, a China, de novo semi-colonizada pelo capital ocidental, fazia as delícias da deslocalização industrial: mão de obra especializada e mal paga, ausência de conflitualidade social, governo forte, mercado a perder de vista. Agora, com a aproximação dos Jogos Olímpicos, aquilo que parecia invulnerável sustento de gerações, ameaça descambar. O inverno expôs as vulnerabilidades de um país que manda "taikonautas" para o espaço, exibe com novo-riquismo as maiores obras de engenharia do milénio, as mais modernas experiências de urbanização e a mais ambiciosa vontade de reescrever a história mundial desde o século XVI. No Turquestão chinês adensa-se a contestação a Pequim, o islamismo penetra pelas frestas dos ressentimentos provocados pela colonização e sinização de populações jamais tocadas por Confúcio. No Tibete, reabre-se a ferida. Muitas pessoas com quem vou trocando impressões sobre a realidade chinesa - homens de "negócios" à parte - informam-me do descontentamento, da larvar luta de classes, do esboroamnto da burocracia, do carreirismo que abriu o Partido a toda a sorte de gangsters, do aprofundamento das assimetrias entre o campo e a cidade, da irreverência da juventude, da expansão da criminalidade violenta. Não sei se tal conjunção inspirará dramáticos acontecimentos, mas só me ocorre - as comparações históricas são sempre falaciosas - os últimos anos do Império Russo antes da Grande Guerra. Então, como hoje na China, o capital ocidental competia freneticamente pela aquisição de posições, a nova classe dos negócios punha em causa os fundamentos da autocracia e as forças da ordem estabelecida acorriam em desespero para manter o controlo. A ver vamos se os próximos anos confirmam o negro presságio, mas ainda há dez anos outro "tigre" asiático, após frenética afirmação, entrou em colapso. Lembram-se da Indonésia ?

Oração por três Yogis tibetanos

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