27 fevereiro 2008

Saque


A Alemanha, depois de haver pilhado sem dó nem piedade, foi saqueada até à medula. Cento e oitenta mil obras desapareceram de museus, bibliotecas, colecções particulares, templos católicos e luteranos, permanecendo hoje acondicionadas em critpas e reservas de instituições russas e norte-americanas, ou usadas como moeda de troca no sigiloso circuito da lavagem de dinheiro sujo. A polémica sobre a restituição das mesmas aos legítimos donos - o povo alemão - tem azedado a relação entre as chancelarias de Berlim e Moscovo. Se os russos invocam a reparação pela agressão militar alemã à URSS, a qual causou cerca de 20 milhões de mortos entre os povos que integravam o império de Estaline, o Direito Internacional não inscreve nem valida a modalidade do saque como argumento. A Suiça possuirá também, em contas abertas por clientes que jamais reclamaram os depósitos feitos nos anos da guerra, toneladas de jóias, manuscritos, lingotes de ouro, estatuária e pintura avaliada em milhares de milhões de dólares. Contudo, a Confederação Helvética, um dos Estados mais atípicos da comunidade internacional - eu diria, dos mais escabrosos exemplos de duplicidade mercantil, sempre com a Cruz Vermelha numa mão e o discreto apoio aos mais acabados facínoras e rapinadores deste mundo na outra mão - diz desconhecer ou lembra o direito dos depositantes ao secretismo. Como quem diz: os ladrões de todo o mundo têm aqui a sua nova Tortuga onde podem enterrar para a eternidade os proventos das patifarias e do sofrimento causado.

Se as obras desaparecidas não servem para fruição dos amantes do belo, outras há cujo percurso acidentado constitui matéria para processos judiciais intermináveis. É o caso do Altar de Pérgamo, que foi trazido do Império Otomano pelos arqueólogos alemães e é hoje reivindicado pela Turquia (onde se situa Pérgamo) e a Grécia, pátria espiritual da obra. Um dos tópicos da diplomacia de hoje repousa sobre a reivindicação de tesouros desviados. O Egipto, o México, a China, a Índia, o Irão, o Iraque e o Sudão travam batalhas sem derramamento de sangue para ver restituídos objectos retirados dos territórios que compõem actualmente estados soberanos. Com uma pontinha de advogado do Diabo, diria que tais obras estão melhor entregues, mesmo que roubadas ou furtadas, nas colecções britânicas, alemãs e americanas, que nas mãos de governos que dão testemunho de desprezo pela arte e pela cultura. Não teria sido preferível se as colecções do Afeganistão tivessem sido retiradas nos séculos XIX e XX e expostas/ estudadas/fruidas em Berlim, Londres e Paris ? No Ocidente respeita-se ou aprendeu-se a respeitar o valor de tais objectos. Noutras paragens, a reivindicação serve, pelo que vemos, para espicaçar vaidades nacionalistas. Talvez um dia a Sociedade de Geografia de Lisboa veja entrar pela porta adentro um diplomata do Benine reclamando as belíssimas peças de estatuária de fundição que os "portugueses roubaram" nos séculos XV e XVI.

Sem comentários: