06 fevereiro 2008

Sabai dee pee mai = Bom Ano Novo


Hoje repeti-o vezes sem conta: na universidade, na piscina, no supermercado, no Metro. É o novo ano chinês e estou longe da China, mas há chineses por todo o lado. Vivem aqui há cem anos, esqueceram-se e deixaram cair a língua, deconhecem os sinogramas, são absolutamente fiéis à cultura, às instituições e às autoridades deste país, mas permanecem chineses no coração. Já os viandantes que chegavam à foz do Chao Phraya no século XIX se espantavam por não haver siameses no Sião. Nas ruas, do humilde carregador ao sapateiro, ao tanoeiro, ao mestre embarcadiço, ao cobrador de impostos, ao letrado e ao comerciante, todos eram chineses. Dei comigo a pensar nos últimos dias na força tremenda desta diáspora absolutamente nacionalizada. Os chineses foram obrigados a renegar os seus nomes e apelidos, a imprensa em chinês foi abolida por decreto, como o foram as escolas e agremiações profissionais e recreativas, as associações políticas, as redes informais - a que chamamos tríades - mas vivem em áreas suas, são ricos, empreendedores, cheios de ambição. Os seus filhos ocupam os lugares cimeiros na banca, nos seguros, na comunicação social, na indústria, no ensino e no mundo do espectáculo. Temia-se aqui, por volta dos anos 10, que a abertura ao regime constitucional e representativo era coisa impossível, pois no dia seguinte os chineses controlariam o parlamento, os partidos e o governo. Houve, até, quem lhes chamasse "os judeus do Oriente", adaptação dos medos que na velha Europa levariam à assunção do anti-semitismo de Estado, que culminou com o que todos sabemos. Mas não, os chineses não só se adaptaram como se transformaram em thais. Hoje, pergunto a um chinês porque comemora o ano novo lunar e responde-me que é a tradição. Se de todo não acredito no multiculturalismo - que acaba, sempre, em matanças e na colectivização do ódio mais irracional, espicaçado pela inveja de quem tem mais e mais riscos sabe correr - acredito na integração. Mas para haver integração é necessário um forte orgulho nacional, essa emoção que as pátrias despertam e infundem. Infelizmente, esse tipo de integração é impossível na Europa, que de tanto ridicularizar, desmontar e enxovalhar a sua memória, transformou os imigrantes em gente sem raízes. Na velha França republicana lembrava-se aos senegaleses os seus antepassados Vercingetorix, Carlos Martel e Joana d'Arc; em Portugal, nos anos 60, os meus colegas negros de carteira na escola primária diziam com a máxima serenidade descenderem de Viriato. A integração é isto: criar o mito da unidade. Sem ela, não vale a pena ter uma bandeira, um hino e uma nação.


Zou Xuan: The Moon over the Street

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