01 fevereiro 2008

O reviralho que não desprega

Esta gente que incute e transmite preconceitos, tiques e semi-verdades misturadas com grandes mentiras que são bisavós de si mesmas; que está há quase cem anos no poder e instituiu canais informais com os quais o mérito, o gabarito e a competência não podem competir; que destruiu o amor-próprio e o orgulho nacional dos Portugueses, dizendo-lhes que todo o passado não mais foi que um doloroso plano inclinado levando à sepultura ou à inexorável perda da independência; que acredita na engenharia política e nas reformas, conquanto estas não ponham em questão o direito que julgam deter sobre o Estado - sua propriedade - e a vida política, extensão das suas cumplicidades seladas por casamentos e espírito de curibeca; que invoca a ética republicana, a liberdade de pensamento e expressão, mas policia, persegue, ridiculariza e abafa toda e qualquer crítica, reparo ou observação; esta gente que transformou a cultura numa afectação alambicada para meia dúzia de diletantes da pena prostituída, desvalorizando e lamentando o "provincianismo" da nossa história literária e artística, mas que exibe o pior dos provincianismos - aquele que vive derrancado na adoração de antiguidades estrangeiras, datadas e há muito caídas no esquecimento - e que esvaziou de conteúdo tudo o que mantém uma sociedade de pé; que vive obcecada pelo libertadorismo, mas não resiste ao usufruto do porrete, da mordaça e das algemas sempre que vozes antagonistas reclamam o direito à expressão; esta gente que se afirmou portadora do estandarte da razão crítica e da liberdade perante o obscurantismo, a crendice e a superstição, mas fez do combate contra a religião uma vergonhosa cruzada contra o direito à espiritualidade individual, a cultura popular e aquela memória de si que dá aos povos a perspectiva do tempo longo e do sentido de comunidade; que odeia o povo sempre que este reage, apondando-o de ralé manipulada, mas que o trata com paternalismo, encharca-o de futebol e vulgaridade e impede-o de atingir a maioridade; esta gente que não consegue debater, não sabe pensar nem afirmar sem o anteparo da ideologia; esta gente que diz venerar a participação, o voto universal e o civismo, mas nunca conseguiu os seus objectivos de forma pacífica, mas só venceu com bombas, revólveres e carabinas - mas também com a calúnia mais reles e com a insidiosa destruição de reputações graças à liberdade de que gozava sob um regime monárquico benevolente, aberto e libérrimo - ; esta gente que se diz herdeira das Luzes e da tradição intelectual do Ocidente, mas retirou o país do convívio da Europa, impondo-lhe o poder da rua, o poder das casernas, ditadores e oligarcas, que o fechou numa bisonha especificidade e numa curiosidade antropológica diga de piedade; que se diz progressiva e ao passado prefere radiosos horizontes de futuro, mas só vive de lembranças e velhos ódios que não desarmam, esta gente é o maior agente de atraso, isolacionismo, pobreza mental e corrupção que impedem o país de se afirmar. Hoje, uma vez mais, mostrou a má-fé, a intolerância, as pulsões totalitárias irrefreáveis e a incapacidade de esquecer que sempre a caracterizou. É o reviralho, pois então !

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