21 fevereiro 2008

No coração do mito


Parece que a polémica sobre a Geração de 70 resultou, fazendo sair a terreiro as minhas preferências blogosféricas. É duro tocar em mitos, pois todos temos um Eça, um Ramalho ou um Oliveira Martins dentro de nós sussurando-nos ao ouvido as frases certas, o pronto-a-pensar, as atitudes e desabafos contra a "choldra", a "piolheira" e a "ralé". Foi por isso, com supina satisfação, que investi contra essa plêidade que lançou raízes profundas, mas que erigiu uma "anti-Paideia" que não mais nos largou. Estar à margem, alvejando, diagnosticando o plano inclinado em que nos vamos colectivamente afundando, exprimir a impossibilidade do civismo e da realização do bem-comum em terra de arrangistas e ratoneiros, tudo isso é o múnus da Geração de 70. Porém, quanto mais me envolvo nesse outro Portugal [sem idealizações patrioteiras] que se foi alargando pelo mundo e deixando marcas de gigante, me apercebo quão injusto, precipitado e feroz foi o legado da Geração. Felizmente, os quatro grandes ( Jansenista, Portugal dos Pequeninos, Cunha Porto e Pasquim ) deram em falar no assunto, quiçá o mais importante debate sobre a cultura portuguesa que importa travar. Eu ainda credito em Portugal. Acredito que poderemos sair da choldra, rapar curta a cabeleira onde prospera a piolheira e acabar com a ralé-rainha que tudo suja. Sou um optimista e acredito no poder da vontade. Se os espanhóis o conseguiram com a sua Geração de 98 - afirmativa, mobilizadora; em suma, aristocrática - nós também o conseguiríamos. Salvar o país não é uma quixotada. Salvar o país é salvar-nos da mediocridade, da pobreza e do miserabilismo. Tenho, como todos, vergonha da generalidade dos portugueses, mas julgo que Portugal, no que foi e é num plano que está muito acima da piolheira e da ralé, merece o esforço. Não somos homens de partidos, nisto dou toda a razão ao caríssimo Cunha Porto, mas chegará o dia em que teremos de escolher entre o revólver de Antero e o nosso amor-próprio. Talvez nos encontremos numa nova Liga Patriótica !

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