05 fevereiro 2008

Nada que não tivesse dito ao longo de oitenta e tal anos

O Dr. Soares bate recordes na arte de não dizer, de não pensar, de nada acrescentar ao que disse, redisse e tresdisse ao longo de quase um século: uma torrente de banalidades, lugares-comuns, tropismos, simplismos e outras tautologias fazem-me pensar, não sei porquê, algures na mistura entre um actor gasto pelos anos - reincidente no repertório - e o oficiante daquelas pequenas religiões que se escudam na repetição, na suposição que os fiéis se contentam com tão magra doutrina . Ao lê-lo no Diário de Notícias dou comigo a rever as décadas infindas em que passou por crivo obrigatório do correctês que era, afinal, pouco mais que nada. O Dr. Soares é um portento de coerência na arte de fazer crer que opina, fazer crer que pensa, fazer crer que é ouvido. É igual ao homem com quem nos cruzamos no autocarro, no Metro ou na fila para o cinema; pouco o distingue do concidadão de Bola ou Recorde debaixo do braço, do sr. Manel da mercearia da esquina, da menina Helena do snack onde tomamos a bica. Os portugueses pelam-se pela bula-bula, detestam o estudo, a concentração, o raciocínio elaborado e tudo o que exige procura de certeza. O Dr. Soares, que tem grande biblioteca, talvez seja um bibliófilo, não sei, mas tenho a certeza que jamais se fixou num livro para lá das badanas, das legendas e de uma ou outra passagem onde era citado. Com tão grande experiência nas viagens, parece pouco saber do mundo. É o que dá viver década sobre década envolvido nessa paupérrima, desgastante e narcísica forma de vida que é a politiquice. Confesso jamais ter conhecido político que me concitasse atenção por mais de cinco minutos. Raspada a película, nada há debaixo do magma efervescente. O que me assusta é o facto de tanta e tão boa gente lhes prestar tributo de canina devoção e simular atenção ao que já foi dito e redito na mercearia ou no snack da esquina. Somos, decididamente, animais religiosos.

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