20 fevereiro 2008

Mas eu aceito partidos, Caro Amigo


O nosso confrade Cunha Porto, com quem sempre aprendo e por quem tenho, mais que admiração, amizade, deu em discordar comigo a propósito de um herético textozinho que aqui ontem deixei sobre a Geração de 70. Não, não se tratava de uma qualquer geração, mas aquela que por antonomásia se deu a conhecer ao país como "A Geração". Relendo o texto - tenho fraquíssima memória e por vezes esqueço o que acabei de escrever - reli-o com distância crítica e sem ânsias de réplica. Os amigos não servem para duelos !
Não, Caro Cunha Porto, não retiro uma vírgula. Até acrescento. A começar com o Antero e a acabar em Teófilo Braga e Junqueiro, os dois mais fracos representantes dessa estirpe de convencidos, a galeria tem contornos desiguais, no carácter dos homens como no gabarito da obra deixada. Se de Junqueiro, que era uma criatura abominável e um tratante nada acrescento ao que aqui em tempos referi, o Antero, de obra desigual, com muita areia e dois ou três momentos de génio, começou mal e acabou pior. Começou a sua cruzada atormentando de impropérios um cego (Castilho) e acabou zangado com a vida e com a sua incapacidade para mandar, sonho que sempre acalentou mas que, chegado o momento, não conseguiu realizar. O Oliveira Martins, por seu turno, que deixou das mais belas páginas de ficção em língua portuguesa - o Portugal Contemporâneo e a sua História de Portugal devem ser lidas como obras literárias, nunca como fonte de conhecimento, pois o homem era um perigoso demagogo e um notável improvisador - foi duplamente culpado pelo rumo que doravante assumiu uma certa inteligentzia portuguesa, dita autoritária e alternativa ao liberalismo, pois revelou-se um oportunista e saiu fintado pela rede de contradições que fora tecendo ao longo de vinte e tal anos de vida pública. Restam o Eça e o Ramalho. Eça foi um inconsequente toda a vida. Queria luxo, conforto, aplauso e vida sossegada, que conseguiu com um bom casamento e postos consulares. Olhando para a admirável obra que deixou, fica-nos a ingrata impressão que esta não reproduz o espírito do homem que animava o cálamo prodigioso. Aquele azedume, aquele quase desdém por tudo o que não fosse seu e da sua condição, só se apaziguou nos derradeiros escritos. Ortigão, por seu turno - aquele que leio sempre com o coração nas mãos - era um sobredotado, mas nunca conseguiu abandonar a "atitude do contra", pois era daquelas pessoas especializadas na arte da contradição e do bota-abaixo que vão escalavrando tudo em que se detêm os olhos afiados e as mãos aguçadas.

O amigo Cunha Porto embirra com a minha insistência em aceitar o mal necessário dos partidos. Pergunto: conhece o Caro Amigo Cunha Porto alternativa a essa forma de arregimentar pessoas para a conquista do poder ? O que me parece é que as pessoas contra os partidos são, sempre, pessoas por "um só partido". Entre um partido que fica, fica, fica até ser atirado borda-fora e os partidos que vão ganhando ou perdendo lugares no parlamento há uma diferença. Os primeiros, quando chegados ao poder, encerram-se na ilusão da perenidade e acabam mal. Os outros, que se vão entretendo com coisas ordinárias e humanas como lugares para amigos e familiares, acabam como começaram: como agências de emprego para medíocres e desclassificados. É a partir desta atitude crítica e realista que me coloco fora de partidos, pois deles nunca precisei. Não quero é um partido que me viole a correspondência, me entre casa-adentro com mandado de busca, apreensão de livros e escritos, me tire o emprego e, ainda por cima, fale de valores, moral e outras coisas em que se especializaram os sistemas mono-partidários sempre à procura de inimigos reais ou imaginários. Neste particular, com a sua ânsia milenarista e escatológica de um fim para Portugal, a Geração de 70 foi um cheque em branco passado a pessoas, de direita como de esquerda, que entraram na vida pública detendo a fórmula mágica para os problemas do país. E o resultado ? A república ? A ditadura ? O 25 da Silva ? Redigo: a Geração de 70 estava prenhe de pulsões liberticidas e ainda vive. Onde ? Basta olhar para a presente situação.


Cesar Franck: Sonata para violino e piano I. Alegretto.

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