19 fevereiro 2008

A maldita geração de 70


Foi a nossa perdição. Nasceu sob o signo da provocação e irreverência juvenis, não soube envelhecer e foi-se convertendo em conservadorismo arrogante e coquete, despedaçando sem piedade, uma a uma, todas aquelas pequenas e grandes certezas que fazem o amor-próprio de uma nação. Nada poupou, mas não soube olhar-se ao espelho. Inventou a tese da decadência, levou a extremos a importância [duvidosa] da Inquisição e dos Cristãos Novos na história portuguesa moderna, inventou a tese da corruptibilidade das elites tradicionais, flagelou sem dó a Casa Real - liberal, amiga das letras e das artes - e chegou a extremos de anti-patriotismo, chegando a supor que a expansão (e a miscigenação) haviam estragado a cepa ibérica e que a dinastia brigantina cometera o crime de nos afastar de uma União Ibérica. O que me incomoda, porém, em toda essa geração de literatos e diletantes, é a afectação e o desprezo que votou a tudo aquilo que nasceu com assinatura portuguesa, um ódio quase doentio ao povo comum, a xenofilia provinciana, o tom doutoral com que foi ridicularizando, diminuindo e delapidando tudo. A Geração de 70, a de direita como a de esquerda, sempre teve inclinação especial pelos modelos autoritários e por um governo de sábios - deles, é claro - mas quando chegou o momento de aceitar o desafio da reforma fugiu, não soube fazer e escudou-se em patéticas e balbuciantes desculpas. Depois, ficou o ressentimento: "se Portugal não nos quis (como salvadores), que desapareça, pois de nós (deles) não é digno". Desde então, com as metástases que implantou e se foram alastrando, toda a vida portuguesa é pasto de impropérios, azedume corrosivo e destemperos verbais. A esquerda que temos é dela filha, neta e bisneta; a direita que temos tem vergonha de Portugal, pois também bebeu do leite envenenado de Oliveira Martins. Dela ficaram reféns e dela foram cúmplices os homens mais brilhantes de quatro ou cinco gerações, da amarfanhante desilusão escapista de Pessoa ao tom irónico e inconsequente de Almada, do poseurismo de Sérgio à acidez de Alfredo Pimenta, do bisonho milenarismo de Pascoaes à canhestra tentação de uma mirífica "via portuguesa", que a chamada Filosofia Portuguesa tentou.
A verdadeira "reforma das mentalidades" começará no dia em que a Geração de 70 for arrumada nas prateleiras, datada e olhada como um descaminho que tanto mal nos fez como povo.


Mussorgsky: Topak

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