13 fevereiro 2008

Ilusionismo das primárias


Faltando apurar dezasseis Estados da União para as primárias do Partido Democrático - todos de insignificante peso demográfico, com excepção de Ohio, Texas, Pensilvânia e Carolina do Norte - e dezanove Estados para as primárias dos Republicanos - todos de igual irrelevância no conjunto dos EUA - espantar-se-á o incauto observador pelo chinfrim em torno da tão aclamada luta entre pretendentes à Casa Branca se manifestar em tão pequeno número de participantes. Salvaguardando a importância que quaisquer mudanças políticas nos EUA possam ter sobre a vida internacional, bem como o saudável confronto de ideias que a democracia oferece, não deixa de ser imperioso apontar três ou quatro notas sobre tal vendaval de discursos, comícios e publicidade.


1. As primárias de um e outro partidos iniciaram-se há anos após mobilização dos poderosos lóbis. Não há candidatos pobres; por outras palavras, todos são milionários ou representantes de interesses que condicionam a apresentação pública de putativos locatários da Sala Oval. Esta tendência oligárquica, que se foi acentuando ao longo das últimas três ou quatro décadas, ameaça transformar a democracia americana em mera plutocracia, e a ideia republicana em monarquia electiva. A atestá-lo, o facto de todos os candidatos de relevo serem ou terem sido colaboradores ou funcionários de grandes empresas; a atestá-lo, o facto desta campanha visar eleger um novo presidente que substitua o actual, filho de outro da mesma família, e da candidata Clinton ser mulher de outro ex-presidente da União. Gore Vidal chamara há anos a atenção para a transformação da República em Império. Hoje como na velha Roma, a fórmula sucessória envolve muitos Mecenas e muitos protagonistas das famílias que tomaram o poder e não o querem largar.


2. A soma dos votos recolhidos por Clinton, Obama, McCain, Romney e Huckabee não chega a 10% do total da população da União. As pessoas, para além daquelas que militam pelos lóbis, pura e simplesmente não votam; ficam à margem, indiferentes e passivas perante os televisores. A maioria esmagadora dos norte-americanos não quer saber, não sabe nem pode intervir nesta a que é chamada a grande festa da democracia. Para melhor exprimir esta contundente exibição de apatia e apoliticismo, atentemos no caso da Califónia. O Golden State é o mais populoso da União, com 33 milhões de habitantes, dois terços dos quais com plenos direitos políticos, o que perfaz 21 milhões de cidadãos adultos com direito a voto. Ora, nas primárias da passada semana, o total de votos recolhidos por todos os candidatos de um e outro partido atingiu pouco menos de 6 milhões; ou seja, 24% dos potenciais eleitores. A Califórnia é excepção, pois é dos territórios mais politizados. Outros há em que menos de 10% da população vota.


3. A festa da democracia sequestrada e orquestrada é um reducionismo. As ideias não se discutem, pois os programas são incipientes, quandos os há. O palco televisivo, com a magreza ou inexistência de ideias, foi-se impondo ao longo dos anos, parecendo que a política não passa, afinal, de uma venda de candidatos consumíveis, com muita cosmética e pouca substância. Ouvi Obama, Clinton e McCain dúzias de vezes ao longo das últimas semanas, não me parecendo que com qual deles me gostasse de encontrar à mesa de um restaurante. São absolutamente insubstantivos, de discurso preparado por assessorias mais interessadas no efeito psicológico que na correcção, na coerência ou na afirmação de convicções. Não podem falar, não podem pensar, não podem ousar, pois servem lóbis em perpétua luta.


4. Muita mentira tem sido vertida ao longo dos meses a respeito do voto das "minorias". Nos EUA já não há minorias. As minorias tornaram-se tão centrais e determinantes no jogo político - minorias de género, sexo, religião e etnia - que as únicas coisas sérias que se tem vertido nestas primárias dizem-lhes respeito. Obama parece uma excepção, por não ser amado pelos afro-americanos - que preferem o estilo rapp ou o pregador bíblico - e por afirmar os valores que durante século e meio terão sido a fonte da legitimação da cepa loura e protestante que inventou e animou a ideia americana, do berço em 1776, à final emancipação dos ghetos étnicos em meados da década de 60 do século XX.


A América é um Império e rege-se por leis que estão acima e aquém da capacidade de homens singulares em mudar grande coisa, pelo que só uma profunda necessidade de crença pode explicar o interesse e comoção que estas eleições estão a concitar. Quando um dia, dentro de setenta ou oitenta anos os historiadores estudarem o declínio dos EUA anotarão, entre as explicações possíveis para a queda da grande potência global, o enquistamento da elite dirigente e o lento apagar do civismo e interesse pela vida pública.


Last Rose of Summer

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