22 fevereiro 2008

Fogo sobre a piratagem


Abri o Dragão e fui confrontado com uma abordagem clássica: de peito aberto, punhal nas mandíbulas, pistola à cintura e sabre; o vale-tudo para forçar o atacado a reunir em quadrado e esperar pela degola. Mas fiquei algo decepcionado com esta investida, pois julguei que das velhas regras da guerra valia tudo, menos obrigar o contendor à prática da psicanálise. No tombadilho da refrega não há lugar nem para canapés nem para confessores. Esses virão depois, quando se tratar de dar os últimos sacramentos aos que se preparam para fechar os olhos e passar à eternidade ou para os sobreviventes a quem dói a consciência por haverem mutilado e trucidado tanta juventude em flor. Julgo que o Dragão se equivocou ou não quis ler o que dos Portugueses digo e repito: que me incomodam, que deles tenho ânsias de me afastar, que me fartei da bovina palha com que vão entretendo uma existência sem risco, de espinha dobrada em salamaleques perante gente que lhes cospe em cima, os manipula miseravelmente, os enche de futebol, tinto e tremoços. Eventualmente, o Português é para nós uma construção, não resistindo à acareação de uma saída à rua. Por isso, reservo as minhas ilusões à ficção dirigente que me mantém vivo, com passaporte da "República Portuguesa" sempre pronto para reivindicar direitos num mundo sem deveres. Não sou, como insinua, companhia, escudeiro, moço de estribo ou mordomo de qualquer desses baronetes medíocres, nunca recebi favores, nunca me viram de cócoras perante quem quer que fosse, de chapéu na mão mendigando restos do pão da véspera. Sou, como sabe, absolutamente livre, e se o Dragão preferiu as imensidões oceânicas onde a Liberdade vive, mas não pisa terra firme, eu, que não sou anfíbio, tento de correr para me fechar em casa sempre que pressinto a proximidade de tal gente. A única confraria a que pertenço é a minha casa. Seria injusto, porém, se assumisse a cómoda atitude do contra-tudo e contra-todos, o único reparo menos gracioso que fiz ao Ramalho Ortigão. Ora diga lá com franqueza se o Pacheco Pereira e o António Barreto - nunca os vi, nunca com eles falei - não farão alguma diferença no cômputo de cretinos e sanguessugas que polvilham a ressequido bolo do regime ? Quanto ao Santana, que entraria pela porta grande na atmosfera queirosiana, só o defendo sabendo como foi ultrajado por gente que lhe é notoriamente inferior, pois se ao Lopes pode faltar alguma compostura e leitura, é criatura simpática. Que gosta das noitadas e outras coisas, pois bem, tal só lhe fica bem. Se gosto do Luiz Pacheco, por que razão não simpatizaria com o Lopes, eu que não prego moral e estou sempre pronto para uma infracçãozinha ? Julgo saber distinguir entre o contingente e o permanente, pelo que na Geração de 70 - todos os encómios literários à parte - encontro tudo aquilo que nos faz hoje tão amargos, ressentidos, desdenhosos e descrentes. E só encontro agravantes para essa geração dourada: tiveram a oportunidade e não a souberam usar para o bem colectivo. Fecharam-se numa torre de marfim e nem o Rei cientista e artista - quiçá o último grande estadista português - os soube tirar daquela reserva e imobilidade. Puderam escrever tudo o que lhes deu na burguesa veneta, nunca o assado e o bom copo lhes faltou à mesa, viajaram, o trabalho árduo nunca lhes bateu à porta e foram cumulados de rapapés pela gente de cabedais com filhas casamenteiras. Não compreendo, sinceramente, como puderam passar toda uma vida a castigar o país por males que a nenhum deles afectava. Diferente, diferente, foi outro grande amargo, o Fialho, que por não ser "menino de algo", por ter terra agarrada às botas, nunca recebeu convite para as libações dos salões espelhados onde soava bem falar da Comuna, do sindicalismo, de Proudhon e das criadas usadas para todo o serviço. A Geração de 70 foi um desperdício, talvez tão gostoso como um bom manjar, mas a digestão, essa, ainda a estamos a fazer. Eles não morreram há 100 anos. Eles estão vivos e por todo o lado, só que aos que agora a casaca envergam falta, em absoluto, o génio dos seus antecessores.
Pensei que o Dragão fosse mais camiliano. O Camilo foi um escravo do tinteiro, do papel, das leis e da moralzinha dos medíocres. Pagou bem caro, mas foi sempre livre. Ao invés, os da Geração de 70 funcionaram em rede, em lóbi, apoiando-se e promovendo a tertúlia. Ora isso não é coisa de pirata que se preze !

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