28 fevereiro 2008

Elites


O Paulo S. Cunha envia-me um mail indignado, fazendo reparos judiciosos, polvilhados de muita ciência, muita Sociologia e muito correctês que me fizeram lembrar as intermináveis sessões de lavagem ao cérebro de marxismozinho que me injectaram anos a fio nos bancos da faculdade. Lembra-me que os acontecimentos da história são produto de "estruturas" e não acidentes resultantes da vontade de homens particulares e de idiossincracias; que são os povos que fazem a história e não os heróis. Perdoe-me o Paulo, por quem tenho o máximo respeito, mas não penso que o "povo" - esse mito romântico - jamais tivesse chegado à Índia sem um Dias ou sem um Gama, que os Gregos se tivessem disposto ir até aos confins do mundo se não tivessem a loucura grandiosa de Alexandre a espicaçá-los. Ter-se-iam ficado, quando muito, pelo primeiro saque e com a barriga cheia de vinho e violações das primeiras conquistas. O povo quer sardinhas na brasa, um copo de vinho e uma broa. O grande mito do nosso tempo reside precisamente aqui: o de fazer crer que somos todos iguais. O grande erro é o de fazermos das elites povo, atrelando-as ao estômago e à sardinha a fumegar numa broa saída do forno. Antes, ensinava-se na academia que morrer era um privilégio reservado àqueles que serviam as pátrias. Hoje, ensina-se-lhes tabelas remuneratórias, sociologia e outras fantasias. As estátuas que povoam os nossos jardins, praças e avenidas não são propriamente as de comedores de caracóis ou libadores de néctares.

Sem comentários: