22 fevereiro 2008

A decadência que nunca existiu


A polémica sobre o "Reino Cadaveroso" é madeira para muito [e bom] fogo. Pois, na sequência dos primeiros tiros - e como por encomenda - tomo conhecimento que a Biblioteca Nacional de Portugal, pela autorizada mão do mais destacado historiador da ciência em Portugal, o Professor
Henrique Leitão, acaba de inaugurar uma exposição sobre a Ciência em Portugal "no tal tempo das trevas, da superstição roncante e do fradismo".
Contribuirá, porventura, o catálogo respectivo e os estudos que inclui para desmascarar um pouco as mentiras que se repetem em pescadinha-de-rabo-na-boca desde a peste do Herculano, passando pelo Rómulo de Carvalho e continuando pelas parvoíces que se escreveram na história de Matoso. Até 1759, o ensino científico na Província Portuguesa era absolutamnente de topo. Passaram por Santo Antão os melhores matemáticos, astrónomos e engenheiros que ensinaram religiosos príncipes e plebeus. As ordenações do geral da companhia Tirso González, feitas em Portugal, no sentido de melhorar os estudos matemáticos, configuram a grande reforma do ensino da matemática no nosso país antes do tal iluminismo pombalino e do Liberalismo. Digo e friso "antes", pois com o Liberalismo - com a venda, o saque e a queima de tanta biblioteca conventual e a destruição da quadrícula do ensino - Portugal passou a ser paisagem no quadro da cultura científica do seu tempo. O analfabetismo que ainda hoje flagela parte apreciável da sociedade portuguesa teve a sua génese, não nos "Ratos da Inquisição", mas na política de terra-queimada do Marquês e dos legisladores do dito liberalismo. Cai em esgoto a tese da Decadência dos Povos Peninsulares, com Antero bem enterrado e Sérgio envolto em gargalhada. A tal Geração de 70 enganou-se no diagnóstico, atribuindo as culpas às vítimas desse processo de destruição e louvando os fanáticos que procederam ao desmantelamento da rede de ensino e dos canais por onde circulava a cultura científica internacional.


Gabriel Faure: Berceuse op. 16

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