07 fevereiro 2008

Bonecos heróicos


Descobri há relativamente pouco tempo o pensamento duro do marxismo asiático. Com excepção de Mao, indiscutivelmente uma cabeça prodigiosa metida num carácter aviltante, pouco me interessara pela teratologia do comunismo - os Kim Il Sung, Pol Pot's e quejandos - por neles nada encontrar para satisfazer a compreensão do mistério da auto-colonização ideológica da Ásia pelas mãos da mais radical expressão do materialismo Ocidental. O comunismo fez de alguns destes líderes ícones de uma geração. Lembro a veneração rendida a Ho Chi Mihn, a sua barbicha de velho sábio confucionista, aquele sorriso de velhote bem aparentado e cativante. Só mais tarde vim a saber que aquele distinto ancião era um pulha como homem, um fanático sem escrúpulos, de uma crueldade arrepiante que até a família mais próxima fez sofrer. Sobre o mítico líder poeta, guerrilheiro, agitador estudantil, filólogo tailandês Chit/Jitr Pumisak, de quem lera um banal Chômm Naa Sakdina Thai (Para a compreensão do Feudalismo na Tailândia) pouco sabia. Via-o como uma cabeça cinzenta, cheia de pronto-a-pensar marxista e pouco mais. Contudo, nos últimos dias dei comigo a ler a History of terms: Siam, Thai, Lao, Khom and the social characteristics of these ethonyms, escrito na prisão ao longo de seis anos e meio (1957-1964), cumprindo pena por subversão. O seu tom calmo e reflectido, a grande cultura, a profundidade da análise, a inovadora abordagem fizeram-me esquecer o homem, o líder do Partido Comunista da Tailândia. Jitr era, sem dúvida, um jovem de inteligência superior, havendo hoje uma quase idolatria em torno da sua memória entre alguma juventude académica. Parece que, como pessoa, era adorável. Porém, em 1963, mal foi libertado, entrou na clandestinidade e passou para a floresta onde comandou uma grupo de guerrilha na região mais deprimida do país, no leste, perto das fronteiras do Laos e Camboja. Ali quis aplicar um marxismo aparentado com o maoísmo, sonhando com um levantamento campesino, o cerco da capital pelo campo, o triunfo da colectivização, a expulsão do capital internacional, a deposição da monarquia, o combate ao budismo. Nos seus textos mais retintamente ideológicos, Jitr sofre uma lamentável metamorfose: entre estes textos e os de um vulgar analfabeto endoutrinado poucas diferenças haverá. Ao ler a History of Terms (...), muda, como se ao escrever um trabalho académico conseguisse suspender a presença do fanático e libertar-se de constrangimentos e medos de incorrecção. No repouso do guerreiro há um homem límpido, tão límpido, legível e sedutor como Gramsci.

Jitr acabou por morrer na luta, em plena floresta, abatido por milícias camponesas de auto-defesa fiéis ao Rei. Parece que o corpo não foi queimado, não tendo havido quaisquer cuidados em prestar-lhe ofício fúnebre digno. Há anos, o corpo foi removido, incinerado e as cinzas colocadas num templo budista. Foi esta a sorte do comunismo: quis mudar tudo, destruindo tudo, mas acabou por se submeter à piedade e benevolência daqueles que quisera ofender e matar.
O Oriente é Vermelho (1966)

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