28 janeiro 2008

Suharto


Morreu anteontem aquele em que a nossa imprensa, sempre parca em conhecimento e inchada de banalidade, só conseguiu ver o responsável pelo genocídio de Timor-Leste. Sei que estas coisas obrigam a paciente pedagogia, feita de leitura e esforço, mais humildade e capacidade para ficar calado, coisas que os nossos brilhantes jornalistas de todo não cultivam. Uma colunazinha insignificante na blogosfera não me obriga a tamanha como inglória tarefa de esclarecer os senhores jornalistas, mas lembraria, a propósito de Suharto - pondo de lado tudo o que o papagear e bruá foi construindo ao longo de trinta anos - que o genocídio de Timor-Leste teve outros responsáveis, por sinal bem vivos e vivendo bem perto de todos os que agora, sobre a cova do ex-ditador de Jacarta, repentem a lenga-lenga que lhes foi dita e redita para fazer esquecer as tremendas responsabilidades portuguesas naquele drama.

Suharto não terá sido tão mau como pintam: deu à artificial insulíndia uma ilusão de unidade, governou com mão de ferro mas respeitou sempre as minorias étnicas e religiosas do imenso arquipélago, foi um fiel aliado do Ocidente no momento em que o comunismo avassalava o sudeste-asiático e quase colocava em risco a ligação entre o Pacífico e o Índico, consolidou a classe média que tornou possível que no período pós-ditadura o país não descambasse no caos da guerra civil, no fundamentalismo islâmico ou na limpeza étnica generalizada e, por último, soube controlar o Exército - porventura a única instituição perdurável - impedindo-o de qualquer tentação de apossamento do poder. Foi corrupto, enriqueceu a parentela extensa, encheu prisões de contestatários e matou centos de milhares de comunistas. Contudo, um mero exercício comparatista - vide Laos, vide Camboja, vide Vietname, vide Filipinas - permitir-nos-á situá-lo no quadro geopolítico regional e hiatórico em que operou. Se a Indonésia é hoje um país estável e em franca recuperação após a debacle de 1997, deve-o a Suharto. Se Xanana e Ximenes vivem, devem-no a Suharto, mestre na arte de manipular e reciclar contestatários ao seu poder paternalista e autoritário. Sei que estas coisas não agradam aos pudibundos ouvidos de muito antigo admirador de Pol Pot, Ho Chi Mihn e Mao, mas o que fazer quando a ignorância e o simplismo casam para toda a vida ?


Song for Bali (Mas Paul)

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