20 janeiro 2008

Sol e touros


Não terei certamente nem tempo nem paciência para ler o tratado genealógico em que Nuno da Câmara Pereira promete esclarecer a sua pretensão e direitos à chefia da Casa Real. O tema em si é perfeitamente irrelevante, como irrelevante é a figura do autor, como insignificante será o texto, como anedótica será a importância dada a tal fait-divers. Se tudo isto é pequena matéria sem préstimo - a somar à da aventureira italiana fanada de carnes e cabeça que nos anos Oitenta se afirmava filha de D. Carlos, antes de se cansar da monomania e passar a pasta para um homenzinho do bas-fond siciliano - dá que pensar a que ponto chegou a via "sol e toiros" dessa sub-cultura monárquica que teima em fazer crer aos portugueses que a monarquia é questão para discussões de pedaturas, escudetes, pantomimas de capa e espada compradas na loja de quinquilharia da esquina, fados piegas e jogos do pau no fontanário da feira da vilória. Durante os longos anos em que desenvolvi actividade monárquica tive a rara oportunidade de devassar os sotãos assombrados de gente que transformou o tema da Restauração em objecto de irrisão. Concordando ou não com o Professor Ribeiro Telles, vejo hoje quão importante foi a sua luta pela dignificação da ideia monárquica em Portugal, entregue durante décadas a coleccionadores do insólito, a mentecaptos e entusiastas de parafernália de antiquário. Os maiores aliados dos poucos republicanos que ainda de tal credo se reclamam são esses monárquicos de reduzidas meninges e fixações. Graças a tal gente, até Ribeiro Telles demonstrar o contrário, a ideia monárquica reduzia-se a bizantinas esterilidades arminhadas, a pegas de cabrestos e a libações de bebidas espirituosas embaladas pelo maldito faduncho, chaga da nossa decadência como povo esgotado e inerme.

É com pesar que verifico que a ideia monárquica não conseguiu sepultar os fantasmas que cavaram o seu descrédito. Se António Sardinha e os Integralistas - por quem nutro absoluta desconfiança no que à qualidade de doutrinadores respeita, mas que eram, ao menos, homens de livros e desassossego - empurraram a ideia monárquica para o redil do extremismo, inviabilizando qualquer possibilidade de a tornar simpática aos olhos das forças que desde o século XIX determinam a agenda política portuguesa, este monárquicos de sol e toiros são o eco de um certo marialvismo lôbrego e de uma absoluta incapacidade de pensar que tantos e importantes serviços tem prestado à república.

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