02 janeiro 2008

Quando a hipocrisia já não encontra as palavras evasivas


A estupidez aliada à má-fé e ao medo do politicamente incorrecto tem destas coisas. Não, não foi "à francesa", como parvamente titula o jornalista: foi à magrebina, foi à argelina ou que lhe quiserem chamar. Nós não celebramos virando e queimando carros, nem temos pelas armas de fogo particular devoção. Nesses países, que teimamos considerar membros de pleno direito da comunidade internacional, não há casamento, jogo de futebol ou enterro sem o crepitar de caçadeiras, revólveres ou armas de repetição. É por tal gente que militam os sempiternos campeões das "justas causas". Lembro que há anos, em Paris pela passagem do ano, foi com quase terror que assisti a algo que certamente não saíu nos jornais da manhã seguinte. Contra a porta da Eglise St-Eustache, mais de vinte "jovens" urinavam perante o ulular excitado de uma centena de apoiantes dessa caterva de díscolos. Há sempre um sociólogo de serviço enumerando as causas dessa revolta, mas que eu saiba, também em Paris vivem mais de 300.000 pobres oriundos do Camboja, do Vietname e do Laos e esses não queimam viaturas, não urinam contra templos cristãos nem andam permanentemente armados. Mas eu sei a resposta e esta é cristalina: os budistas não cultivam a violência mas a mansa resignação. Os budistas não têm lobby nem movimentos terroristas com excusas amizades na vida política. Os budistas vivem internamente ao ritmo exigido pela sua visão e representação do mundo, não têm amigos nem despertam esse infra sectarismo que é movido pela nostalgia e pela revindicta do triunfo do Ocidente sobre o comunismo. Os amigos dos incendiários de Paris vivem, assim, para um ajuste de contas que nunca acontecerá ! Escreve-se um novo capítulo da História do Vandalismo.


Satie: La Mort du Picador

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