18 janeiro 2008

A morte de África

Nos anos 60 discriminavam-se os diversos modelos de colonização, afirmando-se peremptoriamente que o britânico deixara sólidas bases para a construção de Estados de Direito dirigidos por elites urbanas afeitas à prática do bom governo. A estragar o conjunto, o Gana, outrora florescente e entretanto caído na involução, era a excepção. Acusou-se o "socialismo africano", o copismo do sovietismo e o extremismo de N'Krumah pelo colapso do Estado. Logo de imediato, em finais da década, explodiu a Nigéria. Na Guerra secessionista do Biafra procurava-se a responsabilidade do neo-colonialismo francês e a mão do negregado colonialismo português no incentivo da rebelião dos cristãos Ibo. A culpa africana era escamoteada. Para aquietar a opinião pública europeia, apontavam-se os exemplos bem sucedidos do Uganda, do Malawi e do Quénia, repetindo-se à exaustão que a África do Sul, nas mãos da minoria segregacionista e calvinista, ou a Rodésia do Sul, dominada pela minoria de farmers brancos, entrariam mais tarde ou mais cedo na família dos casos de sucesso da via africana da democracia britânica. Entrementes, o Uganda caíu nas mãos de um facínora chamado Idi Amin, a Zâmbia e a Tanzânia viram chegar "técnicos chineses" e o Malawi do Dr. Banda precipitou-se numa forma de governação que faria inveja às comunidades pratriarcais do neolítico. Uma vez mais procurou-se um culpado exógeno: a culpa pela deriva marxista na Zâmbia e Tanzânia decorria da luta dos "Estados da Frente" contra o apartheid sul-africano, o regime de Ian Smith em Salisbúria e a teimosia portuguesa em manter, "fora do tempo", colónias em África. Depois, com as independências de Angola e Moçambique, a culpa pelos desastres humanitários e guerras civis naqueles dois territórios foi imputada a "agentes a soldo do Apartheid". A Rodésia acabou e o apartheid estatelou-se. A África parecia pronta para o grande salto. Já não havia desculpas, pois que a Guerra Fria tinha terminado e o alinhamento perdera sentido. Foi nesse preciso instante que a calamidade se precipitou sobre outras pérolas exemplares de uma África progressiva e próspera. A Libéria regressou à lei da selva, a Serra Leoa implodiu, os Camarões assistiram à radical supressão das boas práticas britânicas, o Ruanda e o Burundi assistiram a escabroso genocídio e o governo da maioria no Zimbabwe conseguiu a proeza de transformar o celeiro do continente em mendigo da ajuda internacional. Restava o Quénia. Acabou em tragédia. Que desculpas encontrarão agora ?

O problema de África, diga-se sem rebuço, não é de natureza "racial": é um problema de impreparação absoluta. Manter a ilusão da paridade dos agentes da comunidade internacional, fingindo, escamoteando, ludibriando os factos é aceitar que a vida de um negro tem menos valor que a vida de um branco, que um genocídio em África tem mais atenuantes que uma prisão arbitrária na Europa, que um governante africano pode roubar, trucidar e espezinhar a lei e os direitos dos seus concidadãos quando sobre um governante europeu acusado de tráfico de influências deve precipitar a memoria damnata.

1 comentário:

João José Horta Nobre disse...

Publiquei:

http://historiamaximus.blogspot.pt/2013/11/a-morte-de-africa.html

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JJHN