06 janeiro 2008

Luiz Pacheco, o grande


Só a custo, quase forçado pela minha querida Adília Lopes, me iniciei há cerca de quinze anos no abjeccionismo das leituras de Pacheco. Diz-se que os tubarões, depois de provada a carne humana, não querem outra coisa e dei comigo a devorar Pacheco: o Pacheco polemista, um raio da morte implacável e absolutamente ingrato; o Pacheco provocador, tão obsceno e tão escancarado na confissão das suas loucuras lúcidas e pulsões que quase emula os grandes santos pecadores; o Pacheco epistológrafo e o Pacheco crítico literário. Pacheco era um grande escritor. Raramente, numa só pessoa, convivem tantos talentos. Mais. Raramente um escritor é a mesma pessoa no acto da escrita e na mesa do café. Pacheco excedeu tudo o que a auto-censura mais branda pode fazer pela "reputação" e "bom nome" de uma figura pública. Sofreu como nenhum homem e gozou como um preto o escândalo que foi semeando em papelinhos, garatujas e sebentas escritas, riscadas, reescritas e perdidas num canto qualquer, ou trocadas por "20 paus" para angariar os meios para a carcaça, a cerveja e a bica. Pacheco foi um rei e cuspiu nas convenções literárias, nas academias, na pose do intelectual. Foi, sempre, um miúdo de 13 anos, mas um miúdo de génio que palmilhou todos os sendeiros do inferno. Trocaria dez minutos de um naco de Pacheco pelas obras completas dos nossos "escritores" da praça. No fim, até uma tença do Estado recebeu. Quando voltar a Lisboa, se me disserem onde está, lá irei depositar um ramo de flores na campa do rei. Coisas destas só raramente acontecem. Pacheco fintou todos os cálculos de um país que ama o cinzento, que respira "seriedade" e que venera o "parece bem". Viva Pacheco, pois !


Ambrose and his Orchestra: Ultra Modern Swing

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