14 janeiro 2008

Estamos mortos ?



Convidou-me há tempos o meu velho e querido amigo Pedro João para escrever umas linhas sobre Tradição na única revista on-line portuguesa, a excelente (e grátis) Alameda Digital. Com os afazeres da minha nova vida longe do pequeno rectângulo do século XII - o que ficou depois de tudo - não pude corresponder e faltei à chamada. Acidentalmente, por força da investigação sobre fontes da tradição siamesa que vou fazendo, dei comigo a relacionar matérias e perspectivas cuja aplicação não sofre qualquer diminuição de inteligibilidade, não obstante as circunstâncias geográficas, culturais, de sensibilidade e cronológicas serem absolutamente diversas das nossas.

Afinal, que "Tradição" é essa reclamada pelas direitas ? A Tradição não existe, poderia rematar sem mais delongas, posto os sistemas culturais estarem em perpétua mutação, nunca se fixando e cristalizando numa "identidade". Uma sociedade de Tradição seria, no extremo, uma extravagância, uma curiosidade antropológica ou um museu vivo, como o ornitorrinco-bico-de-pato, os Dayak do Bornéu ou o Chihuahua mantido artificialmente pelo cruzamento consanguíneo. Aquela "Tradição" incensada por algumas direitas não passa, afinal, de uma construção carregada de preservacionismo e votada ao fracasso, pois os bilros vão desaparecer, como vão desaparecer as touradas, os ovos moles, o cavaquinho, os "trajos regionais", a matança do porco, os móveis alentejanos, os pastores, os escorregas da Madeira e as fragatas do Tejo. Tudo isso é, já hoje, matéria para parques temáticos, atestando a morte de uma "tradição" que, no fundo, nunca existiu. Sabemos que a formação das identidades, na acepção que certa direita invoca, foi fabricada entre 1840 e 1920-30 servindo de esteio para a sustentação dos nacionalismos e amparo de um sentimento de pertença à comunidade mais vasta da língua, do complexo Estado moderno, da fronteira económica e da fidelidade ao viver-para-nós que lhe deram expressão. Pois, se essa Tradição existe, por que razão escolhemos o Fado, as marchas populares, o Galo de Barcelos e as "danças e cantares" - tudo coisas recentes, com menos de 100 anos - para tipificar a identidade portuguesa" ? Leia-se o incontornável La création des identités nationales, de Anne-Marie Thiesse, para aferirmos a que culminâncias atingiu a criatividade dos nossos avós e bisavós do século XIX na invenção dessa "Tradição". O kilt escocês foi inventado ex-nihilo, como o foram a "cultura céltica", as "sagas nórdicas", as "línguas nacionais" (romeno, norueguês, croata, etc), os castelos medievais "restaurados", o "românico", a "gastronomia portuguesa", o "artesanato" e, até, casamentos institucionais que jamais se verificaram, como esse suposto consórcio entre o Trono e o Altar tão copiosamente apontado pelos "tradicionalistas", ou, ainda, o "corporativismo" transposto para o mundo moderno para contrariar a inevitável entrada em cena das massas, da opinião pública e dos partidos políticos ideológicos. Se tudo isso foi uma mentira, o que fica ou ficou das pátrias e das identidades ? Diria, por absurdo, que ficou tudo aquilo não maculado pelo "estúpido século XIX". Um português sente-se menos português por lhe retirarem a ginginha, a pescadinha de rabo na boca, a lampreia, o pão de ló de Ovar, as caracoletas assadas e os pézinhos de coentrada ? Se assim for, a identidade nacional vale pouco, tão pouco que deve ser arrumada no catálogo dos produtos raros do Carrefour.

Penso, ao contrário das esquerdas, que essa evidência da Nação não é uma mentira. As nações existem e não se perguntam nem se questionam. É verdade que muito do que são - ou quase tudo - foi alimentado pelo Estado, pelo ensino público obrigatório, pela historiografia cívica e pelo levantamento de barreiras à comunicação com os vizinhos. A dimensão da Nação não se afere, pois, nem pela cultura material, hábitos e costumes - que raro sobrevivem a três gerações - mas a constantes do complexo geo-político a que chamamos de interesse nacional ou "objectivos permanentes do Estado". O desastre contemporâneo é que o Estado já não alimenta a ilusão da perpetuidade dessas "tradições" pequenas e aderiu, de armas e bagagens, à tradição geo-política (ao interesse nacional permanente) doutros Estados. A Europa, como a pintam alguns, é, sem tirar nem acrescentar, o Zollverein alemão com umas pitadas de bonapartismo francês e umas discretas concessões ao imperialismo espanhol. Somos, nesta matéria de capitulação, uns idiotas que concedem ao ladrão as chaves para nos entrar casa-adentro ou como aquelas velhinhas entrevadas que facultam ao simpático vigarista o código da conta bancária. Somos, em suma, um povo sem Estado.

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