23 janeiro 2008

Dois anos sem dizer cavaco


Para além do escandalete da Ota, forçado pela fronda dos empresários, dir-se-ia não existir a instituição Presidência da República. Maravilha das maravilhas para um monárquico como eu, uma prova mais para demonstrar a artificialidade do lugar, mas um verdadeiro desastre para o funcionamento de um regime cada vez mais autista, agressivo e emparedado no solilóquio das banalidades e para um país nas vascas da depressão, sem auto-estima e sem perspectivas de futuro. O "mais alto magistrado" não faz, não fala, não aconselha, não exprime reservas. Vai pelo país fora à procura de temas delicodoces - a exclusão e a integração, a terceira-idade, a saúde e as criancinhas - tudo matérias relevantes, mas que jamais terão qualquer expressão, pois o problema do país não é o das políticas sectoriais mas de ausência de grande política. Falta ao país a grande política: falta-lhe uma ideia de continuidade, com ou sem a Europa, entregue a cozinheiros e copeiras, falta-lhe vibração, patriotismo e orgulho nacional; falta-lhe o sonho e o cortar amarras com tudo o que o nos trouxe a esta miserável situação de desamparo, penúria, atraso e baixar de braços. Cabia ao Presidente da República encher o coração dos portugueses, incitá-los à iniciativa, puxar as orelhas a um governo que existe mas não vive. Cavaco não o fará, pois, na lógica da banalidade em que estamos imersos, o que importa é assegurar a reeleição. Os portugueses pelam-se pela morte. O maior desejo dos portugueses é o de estarem mortos, com três palmos de terra em cima e uma jarrinha de malmequeres sobre a tumba.

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