29 janeiro 2008

A decência e os animais


É empírico, mas verifico que as pessoas que mais têm para dar são aquelas que amam os animais. O desprezo pela dor alheia, o desinteresse pelos outros, a crueldade, a mesquinhez e o egoísmo mais estreito manifestam-se na forma como tratamos os animais. Digo-o sem rebuço: a dimensão ética de cada um está estampada nos actos mais pequenos, nunca nas altissonantes proclamações, nas abstracções, delírios metafísicos ou grandes racionalizações sem ponto de aplicação. Habitualmente, os hipócritas invocam as crianças famintas e abandonadas para se desculparem pela sorte dos animais que, ditos de estimação ou domésticos, são sujeitos a vergonhoso tratamento às mãos de bípedes implumes. Que eu saiba, nenhum dos grandes proclamadores hipócritas jamais socorreu uma criança. As civilizações trazem uma genealogia de amor ou desprezo pelos animais, pelo que olho com redobrado desprezo para aquelas onde os animais não existem senão para a degola ou objecto da crueldade. Deixei de ter qualquer respeito pelo Islão quando verifiquei a que ponto chegara o ódio aos cães, aos porcos e até às aves, tidas como demónios tentadores. Se os cristãos tiveram um S. Francisco de Assis e a religião de Abraão proibiu a caça como desporto, os budistas, mesmo aceitando a fatalidade de uma justiça cósmica, inelutável herança de actos passados, entendem que o amor pelas criaturas vivas engrandece quem o pratica. Em Portugal, estamos ainda no neolítico: a tara cinegética, a perversidade das touradas, a matança e degola do porco, os jogos com animais fazem do nosso país uma vergonha para a causa da defesa da vida animal.
Advertido pelo Da Literatura, faço minha a subscrição europeia em defesa da Convenção Europeia para a Protecção de Animais de Estimação e Animais Errantes.

Sem comentários: