31 dezembro 2008

Manjares do Sião no 31 de Dezembro




O meu Ano Novo já passou. Andei por Banguecoque na companhia de dois amigos, ele um grande pintor português - dos mais conhecidos - ela uma militante do associativismo cultural. Gente viajada, educada e muito lida, daquela com quem se pode passar um dia inteiro sem darmos conta do passar das horas. Acabou a jornada no belo restaurante de um hotel de referência. Pela decoração, só me ocorreu o Jansenista; pelo opíparo jantar - coisa verdadeiramente barroca, regada por vinho italiano e champagne estonteante - lembrei-me do saudoso Je Maintiendrai, que lá pelo Oriente Médio terá já tido a sua conta de Sardanápalo. Falou-se do Oriente: dos portuguet de outrora, de vice-reis de montante na mão, da língua franca portuguesa na Ásia dos séculos XVI a XIX, dos fastos de outrora. Regresso cedo a casa, pois os meus amigos partem amanhã cedo para o Camboja. As ruas estão cheias de gente que se diverte, pula e fotografa as esplendorosas decorações da quadra. Uma banda toca incessantemente marchas alemãs e americanas. É Banguecoque, a que vicia ao primeiro contacto. Apanho uma motocicleta táxi, para melhor fintar o trânsito. O homem pergunta-me de onde venho. Digo-lhe Portugal e ele só diz: "o país do futebol". Antes isso, não me fosse falar de coisas menos agradáveis.
O segundo fim de ano fora da pátria, mas com portugueses por perto. Confesso que me faz falta o meu país, que tanto amo e me repele como um amante desprezado. No próximo ano há mais.

30 dezembro 2008

Aqui não há prémios nem bonecas de barro tosco



Cheguei a aderir à moda, pois pensava que seria um inocente gesto de cortesia, como as prendas que damos a meia dúzia de pessoas pelo Natal. Mas não, isto na blogosfera está-se a transformar num clube do elogio recíproco. Os "grandes" condecoram os "grandes", os pequenos prestam vassalagem aos grandes oferecendo-lhes ditirâmbicos que tocam as raias da humilhação - "dou-te uma cruz de lata" (daquelas da União Zoófila que os de quatro patas exibiam nos tempos das zoonoses), "por favor tem a magnanimidade de me referir". Os povos das montanhas tinham, no Sudeste Asiático, o costume de enviar todos os anos à capital do seu protector umas arvorezinhas de prata e ouro. Os mais pobres, enviavam uma safra de raparigas púberes para o harém do rei, mais meia dúzia para distribuir pelos príncipes. As tribos paupérrimas enviavam arvorezinhas em argila, mais bonecas de palha com os trajos do seu povo. Na nossa blogosfera, o valor desses elogios é comparável às bonecas de palha ou às árvores em barro tosco; ou seja, nulo. O bom deve ser premiado, o mau deve ser pudicamente evitado. No fundo, este medium de liberdade só espera com ânsia o dia em que subirá ao papel para se rojar aos pés de ministros e presidentes. Compreendo a prostração ante o Altíssimo, seja na Meca, em Jerusalém ou em Roma, como a respeito perante o Rei que aqui é avatar de Vishnu. Não me passaria pela cabeça fazer o sajdah ante um ecrã de computador. Aquilo que é bom sabe que é bom; o que é mau precisa de prémios. É moeda contrafeita, mercadoria enganosa. Assim acabamos o ano.


Guarania Sinfónica. Nemity ((J.A.Flores / C.F. Abente)

O serial killer prepara-se para atacar de novo


Pois, tanta alegria encomendada, tanto espumante e tanto champagne, passas e desejos formulados. É já amanhã. As pessoas vão tilintar copos, correr para a varanda para gritar "vem, que nos tragas melhores dias e felicidade", mas ele, no escuro impenetrável, cego, perpétuo, só sabe que temos os dias contados. É o tempo, o único serial killer, o que nos permitiu viver e que um dia nos tragará para o vórtice. Tudo o resto, é esbracejar infantil para iludir o inevitável. Divirtam-se, pois já não falta muito.


Big Ben, 1890

29 dezembro 2008

Livros: amor, guerra e desgraça de uma mulher fatal



Eliza Alicia Lynch era uma beldade loura fugida à fome que assolara a Irlanda nos anos 50 do século XIX. Chegada a Paris na miséria, teve a desventura de conhecer o jovem Francisco Solano López, filho do presidente paraguaio então em digressão pela Europa em busca de engenheiros siderúrgicos, militares e ferroviários. O Paraguai, a mais próspera e progressiva nação sul-americana, possuia uma população com elevado índice de literacia, resultado do esforço das reduções jesuíticas em criar uma república nativa livre das oligarquias terratenentes brancas que na foz da Prata se haviam emancipado de Madrid. Francisco era um homem de encantos vários e dizia-se que seria um dia o grande estadista e espada vitoriosa que velhas profecias guaranis anunciavam. A paixão recíproca levou-os à mais fantástica aventura. Ele não mais a abandonou, ela instilou-lhe sonhos de glória militar e expansionismo militar. Ditador por herança paterna, Francisco lançou-se numa guerra que se prolongaria por cinco anos e no rescaldo da qual, invadido pelos exércitos brasileiro, argentino e uruguaio, o povo guarani do Paraguai foi exterminado e o país reduzido a escombros. De derrota em derrota, de retirada em retirada, Eliza manteve-se até ao fim ao lado daquele que o seu povo crismara de Napoleão da América do Sul. É esta a história ficcionada desse amor de perdição que me chegou às mãos por um amigo e li em quatro noites. De facto, para além da religião, só o amor e a política são capazes de levar os homens à loucura.

Bajo el Cielo del Paraguay (Alberto de Luque)



Que linda es mi bandera

Bandera de mi patria tan querida,
bandera de mi cielo guaraní.
Emblema sacrosanto de mi vida
sabremos defenderte hasta morir.
Enseña tricolor de mis amores
en ti se representa mi heredad,
el rojo simboliza la justicia,
el blanco la paz y el azul la libertad,
Qué linda es mi bandera paraguaya
a su sombra generosa sueño la felicidad,
En el escudo ostenta un gorro frigio,
Dice Paz Y Justicia y un gallardo león.
En el reverso la palma y el olivo,
La estrella de bonanza simboliza mi nación
Los López contemplaron orgullosos,
surcar en el progreso tu flamear.
El Mariscal de acero dio su vida
defendiendo hasta la muerte
a su amado Paraguay.
El temple de tus hijos, mi bandera,
fornará la linea plena
a mi hermoso Paraguay.

Carmelinda Pereira e Isabel do Carmo na Tailândia



Lembram-se das Base-FUT, dos PR-PBR, do POUS, da LCI, da CLARP, da FSP, URM-L, dos VAF que em 1976, passado o 25 de Novembro, ainda exigiam lutas, ocupações, "grandes jornadas", angariavam abaixo-assinados e sonhavam com uma revolução redentora ? Eram os retardatários inconscientes do PREC, a tropa miúda que tivera dois minutos de fama num país feito manicómio e que não queriam largar mão da anormalidade em que haviam prosperado precipitando-nos no ridículo. Essa militância, talvez a mais idealista - pois que os mais avisados carreiristas se haviam passado para portos de abrigo mais apetecíveis como o PS e o PSD - fazia-se de muita ingenuidade e até sacrifício. Desconhecendo que a grandes perturbações sucede um período de restabelecimento das coisas futéis que fazem a normalidade, ter-se-ão sentido ultrajados por já ninguém lhes prestar atenção. Os portugueses trocaram então Enver Hoxha, Mao, Pol Pot, as fitas das bailarinas guerrilheiras chinesas da Ópera do Povo, os poemecos de José Mário Branco, as brochurazinhas da Editora Vento Leste, as sessões de esclarecimento sobre as comunas de Qingthai e Yunnan pela Gabriela Cravo e Canela, pela Visita da Cornélia, pelo Porto-Benfica dos domingos ou, simplesmente, regressaram a Fátima para pedir uma graça ou ao Coliseu para escutar Amália.


Pois bem, tal como no Portugal pós-PREC, aqui pela Tailândia também há gente que julga que a balbúrdia pode e deve continuar. Esgotados por tanto comício, por tanta barricada, jornais de parede, os tailandeses só falam de filmes, projectos de fim-de-semana, do último perfume, do CD acabado de sair. Os "vermelhos" pró-thaksinistas querem repetir, já sem graça, o mini-PREC ao contrário que aqui se passou ao longo de meses e que culminou com a ascensão ao palácio do governo de um ministério monárquico, sereno e de acalmação. Se nos próximos dias de novo ouvirem coisas abracadabrantes sobre a Tailândia - cargas policiais e gás lacrimejante, barricadas e outras picardias - não temais, pois são os últimos cartuchos de um processo que está encerrado. É o último grito de quem perdeu e sente o chão abrir-se sob os pés. São, eventualmente, os melhores entre os fiéis de Thaksin, agora um mero gurú que parece só reunir aqueles que nada têm a perder. A polícia vai tratar do assunto e nos próximos dias nada restará desta arremetida desesperada. Venham, pois, à Tailândia. Não há nada: é só fumaça ! Estamos em Thermidor, já ninguém quer saber de política de rua.

26 dezembro 2008

Expressões que detesto (4): "indústria turística" / การท่องเที่ยว ดีหรือไม่ดี


Aqui está um dos grandes bezerros de ouro do tempo presente. O turismo dá emprego a milhões, dizem; o turismo é um dos grandes vectores para o desenvolvimento dos países com sol e praias, acrescentam; o turismo permite a circulação de pessoas, permutas culturais, quebra o isolamento, protege o ambiente, insistem. A tentação de fazer engenharia social, de converter sociedades direccionando-as para a especialização no ócio de terceiros abastados, de transformar cada um em bartender, recepcionista, técnico de lavandaria, limpador de quartos e de piscinas, jardineiro de campos de golfe, criado de mesa, guarda de resort, motorista de limousine de aluguer, massagista de SPA, escort girl (ou escort boy), fabricador de bugigangas ditas de artesanato, tudo isto faz as maravilhas dos promotores de sonhos ao alcance da maioria dos ocidentais em busca de refrigério para apagar onze meses de frio, aborrecimento e stress.


O turismo não é um dado de civilização, mas uma marca de decadência. O turismo acentua a colonização e a dependência, tem impacto nefastíssimo na formação profissional, retira braços da agricultura, da pesca e da indústria, perturba - e de que maneira - a ecologia social, cria brutal atrito cultural, vulnerabiliza sociedades inteiras expondo-as às flutuações de moda e conjuntura económica. São quinze dias e catorze noites de bebedeiras, rave parties, casos de polícia, altercações, pugilato. Ao abandonarem os "paraísos tropicais" - paraísos para os caçadores de fotos, para os ocidentais em busca de abraços e beijos pagos - regressam aos seus frios, ventosos e aborrecidos países de origem cheios de sonhos, ideias feitas, ego compensado e aquele sentimentozinho de superioridade que faz a desgraça das paragens por eles invadidas e brutalizadas.


Compreendo agora, conhecendo e falando sem ocultação com os thais, o mal desta indústria. Compreendo, agora, por que razão se vai espalhando a xenofobia, o medo pelo estrangeiro, aquele cansaço de se ter sempre por perto um mastodonte tatuado, piercingado, de chinela (ou até descalço, no centro de Banguecoque), exigindo, dando ordens, triturando as mais elementares regras da urbanidade. Sim, os "paraísos tropicais" estão fartos dos estrangeiros. Simulam simpatia, pois os mastodontes XXL e arrogantes trazem dinheiro, dinheiro fácil que tudo quer comprar, que lhes invade os templos de gargalhadas e gritos, que standardizou bairros inteiros em disneylândia de copos, decibéis e propostas para uma noite. Quando os aeroportos fecharam portas, um amigo thai disse-me, sorrindo: "ao menos vamos ficar descansados durante uns tempos". A reputação do turista está em queda. Após 30 anos, a ideia que de nós, ocidentais, fazem é, no mínimo, reservada.


Sabemos o mal que tal indústria fez a Portugal nos anos 60, 70 e 80. O Algarve escalavrado pela especulação imobiliária - aquilo fora uma terra belíssima é hoje um amontoado de betão, um monumento ao horror e à patetice - constitui-se hoje em "paraíso para golfistas". Ora, se o impacto social e cultural foi terrível, o impacto ambiental parece multiplicar por dois dígitos a desdita. Um campo de golfe requer milhões de litros de água, milhares de sacas de herbicidas e devasta a orla costeira "para dar vista larga". Se perguntarem a um jovem algarvio o que quer ser, dir-vos-á que quer ser criado de mesa ou caddie. Os algarvios mudaram, mudaram muito com a tal indústria. Dizia-se, nos anos 50, que os algarvios eram doces e sorridentes, amenos e humildes, quase levantinos. Depois, chegaram os mastodontes XXL e tornarm-se ávidos por dinheiro fácil, respondões e quase agressivos para os outros portugueses (que não tinham dinheiro) e cínicos na cata de clientes. Se assim foi no Algarve, calcule-se o que não terá sido no Sri Lanka, nas Maldivas, BirMãnias e Tailândia.


Estes comentários indignarão decerto os fascinados pelo dinheiro terraplanador, os construtores civis que mutilam o original e, sobre os escombros do verdadeiro edificam vilas neo-D. João V. Decerto que o turismo é um bem, quando doseado e tido como fonte marginal de receitas. Medina Carreira afirmou que a partir dos 10% da população activa envolvida em tal sarambanda de copos, golfes e massagens, o perigo do turismo se transformar em mal económico é evidente. Tempos houve em que não havia turismo, mas viajantes. Estes, sim, eram como o grão de sal que trazia um toque de diferença. Hoje, temos camionetas cheias de gente XXL, aviões-carreira apinhados de uma matulagem insuportável, cidades feitas para eles, praias para eles, espectáculos, restaurantes e artesanato "tradicionais" para eles. É um bem ? Não, é um flagelo.


Khon Thay Yúu náy ? Povo Thai, vais para onde ?

25 dezembro 2008

Um leitor embasbacado


De um declarado socialista recebi um mail onde não faltaram os votos de um Santo Natal. O leitor, assistente universitário, dizia-se embasbacado com a apologia que aqui faço do "Império", desculpando-me pela "nostalgia", que "não sendo de um extremista" (obrigado), é "difusa lembrança de tempos que não voltam". Caro leitor socialista, eu sou por tudo o que levante Portugal, por tudo quanto lhe restitua o amor-próprio, por tudo quanto nos fez e nos lustrou. Se tal sentimento for compartilhado por PS's, PSD's ou PP's, então estarei com eles. Se, porém, quiserem este Portugal portugalinho, sem glória, sem chama e sem luz, apartem-se e mim. Seria bom que os nossos preclaros socialistas, social-democratas e centristas pagassem aos seus digníssimos deputados viagens de estudo às obras e marcas, de pedra e sangue, de pedra e gente, que Portugal espalhou pelo mundo. Talvez se deixassem de europeísmos acocorados e mendicantes e se voltassem, de novo, para o Mundo que o Português Criou. Bom Natal.

24 dezembro 2008

Banguecoque: Catolicismo quer dizer Portugal /

A catedral de Assunção, sede do arcebispado de Banguecoque, acolheu hoje milhares de católicos tailandeses para a celebração do Natal de Cristo. As paredes exteriores do grande edifício estavam cobertas com faixas com as cores verde-rubra, em declarada alusão à marcante influência de Portugal na implantação do cristianismo nestas paragens do mundo.

No interior, cercando a nave central, bandeiras de Portugal decoravam a magnífica catedral construída pelos padres franceses em inícios do século XX. Durante séculos, ser-se católico na Ásia era sinónimo de português. Portugal, mais que um Estado, era uma ideia de fraternidade entre os homens, um sentimento de unidade para além das fronteiras. Estes "portugueses" detinham importante lugar no Camboja, no Vietname, na actual Malásia, no Sião e na Birmânia, sendo-lhes atribuídas funções relevantes na administração, no exército e no comércio. Sendo súbditos de reis, eram "portugueses", com direito a foros de isenção e liberdades no quadro das monarquias budistas. Deixaram de ser considerados quando em Portugal, com a criação da cidadania (1820), se viram privados de declararem fidelidade a duas pátrias, a terra onde haviam nascido e o sentimento de pertencerem a uma comunidade de fé que tinha no Padroado da Índia o seu centro de irradiação.


Com as doze badaladas da meia noite e um intenso fogo de artifício que quase fazia saltar os vitrais, a entrada da Cruz Processional, precedida pelos turibulários, sineiros e círios encheu o templo de solenidade, enquanto o coro entoava o Gloria in excélsis Deo / Et in terra pax homínibus bonae voluntatis / Laudámus te benedícimus te adorámus te glorificámus te (...).

Os orientais possuem apurado sentido da grandeza litúrgica. As muitas dezenas de rapazes avançaram em passo cadenciado enquanto a multidão benzia-se ou fazia o wáy tailandês (cumprimento similar à posição de oração). Como requer a cultura local, as expressões faciais não denunciam qualquer emoção, pois o controlo das paixões da alma é tido como uma conquista de si mesmo.

A entrada do Cardeal de Banguecoque, Michael Mitchai Kitbunchu, velho amigo de João Paulo II, aumentou a emoção. É um homem ainda vigoroso e ágil, no andar e no falar, não obstante os oitenta anos. Há um ano, em visita de cortesia à catedral, na companhia de um grande amigo meu, grande historiador da Ásia Portuguesa, Sua Eminência apareceu-nos de calções e sapatos de ténis, pois acabara de chegar, suado e felicíssimo, do jogging que diariamente exercita. Foi deveras estranho ver dois portugueses beijando o anel cardinalício ... a um cardeal em trajo de corrida ! Hoje ostentava os grandes paramentos das cerimónias festivas. Fala com desenvoltura e não deixou de referir o ano atribulado, mas depressa amenizou a multidão, fazendo-a rir, ao afirmar que só podia dar alguns presentes - bonecos para as crianças com menos de 5 anos - pois "Deus nunca dá tudo de cada vez. Esperem pelo próximo ano para ver se nessa altura Deus vos quer dar algo mais". Seguiu-se o beijo aos pés de Cristo Menino ao som de Sánctus pléni sunt caéli et terra glória tua (...). Foi uma noite de Natal diferente, longe da família, longe do bacalhau e do chiffon de chocolate, mas senti-me entre a minha gente, entre os "portugueses da Tailândia".

A Igreja católica tailandesa não tem mais de meio milhão de fiéis, mas é activa, quase militante, possuindo orgãos de comunicação social, colégios, escolas técnicas e uma universidade. Desmultiplicando-se am acções no apoio às populações mais carenciadas, facto que muito tem contribuído para o grande respeito que lhe tributam as autoridades, parece ter um risonho futuro, que confirmei pela juventude dos muitos padres ordenados. Se o nosso MNE quer um aliado precioso na Tailândia, deve bater à porta da Igreja Católica. Ali, o nome de Portugal, mais que respeitado, é amado.


Sanctus

A minha melhor prenda de Natal

Chegada do 1º Batalhão de Caçadores de Moçambique ao Estado Português da Índia (1954)

Miguel:

Não o conheço, desculpe-me por isso pular uma série de justificadas convenções, mas não resisto contar-lhe um insignificante episódio que tem a ver com a sua escrita (que leio regularmente). A minha Mãe viveu em Macau oito anos durante a adolescência, . O meu Avô era militar e por lá cumpriu 2 ou 3 comissões de serviço na década de 40. Essa permanência da família em terras do Oriente (avós, mãe e tios) marcou para sempre todos os envolvidos na aventura... E, de certa maneira, também os seus descendentes. Anos depois regressaram a Coimbra finda a comissão, mas com a bagagem cheia de novos amigos, quer da Metrópole, quer da Índia Portuguesa (e, num caso, até da própria Macau). Mais tarde, os meus pais voltaram a Macau várias vezes, e também conheceram a Tailândia e China à vol d' oiseau, claro (não eram mais do que estadias motivadas por congressos médicos, em que o meu pai intervinha). Anos a fio, lá em casa deles, desagua(va)m volta e meia amigos desses tempos (cujos filhos, em alguns casos, se tornaram meus amigos). Uns vindos de Lisboa, e outros também, mas porque lá 'transplantados' depois de África. Nos últimos tempos, a minha Mãe tem tido cá uma dessas amigas em sua casa, goesa de estirpe cheia de tradições (e horrorizada com o frio!). Ela tem descendência lá, onde mora, bem enraizada nessa estranha mescla cultural que é a "indo-portugalidade" (cuja subsistência abona quase em exclusivo em favor deles).Um dia destes, pressentindo a probabilidade de sucesso, resolvi mostrar a estas duas adoráveis mães de 80 anos o seu blogue "Combustões". Para melhor atingir o objectivo, imprimi-lhes dezenas de posts seus, escolhidos a dedo, claro.E foi o delírio: pelos temas; pelo seu português clássico e impecável; pelas suas posições e pela similitude das suas invocações, no eco das evocações que elas transportam... Neste momento, já as passei para o "nível avançado". Acompanham a actualidade política tailandesa!- E o êxtase com as fotografias? Total !! Pronto, aqui fica este "recorte da vida quotidiana portuguesa"! Ou de como duas velhinhas cultas e viajadas, mas "infor-excluídas", são leitoras assíduas do blogue COMBUSTÕES e já completamente rendidas ao seu autor!

Laura (Coimbra)

23 dezembro 2008

Prendas para os meus predilectos (2)

Para o Batalhão de Choque, que desfralda as mesmas bandeiras e executa movimentos de campo ao som da mesma fanfarra.


Para o Corta, este hussardo que cavalgava bombas voadoras.

Para a Câmara dos Lordes, cujo título oferece contraponto à Câmara dos Nulos de S. Bento.

Para o outro exilado, na evocação do homem que tornou possível o primeiro Natal português no Sudeste-Asiático.

Nunca pensei que houvesse quem comigo partilhasse a mesma visão do mundo.

Para o Grande Enigma da blogosfera, como eu um amante das coisas da Ásia.

Para a Isabel, com grande saudade das nossas paródias e gargalhadas até às lágrimas.

22 dezembro 2008

Prendas para os meus predilectos (1)

Para o Insurgente, de um liberalismo sem barriga e sem conta bancária, indefectível na luta pela libertação da nossa sociedade da tentação da escravidão voluntária.

Para o Professor Maltez, que como eu ainda acredita que no derradeiro momento o espírito tudo sobrelevará.

Para o Pasquim, o mais coerente, fiel e seguro; logo, o mais dialogante dos blogadores de temas de hoje e de sempre.

Para o Joaquim, zelota com costela essénia no meio do surdo deserto do mundo moderno.

Para o João, de baioneta em riste na terra de ninguém esventrada pela estupidez dos homens. Que nunca lhe esmoreça a atenção de sentinela.

Para a Adriana, que inculque nos novos o orgulho das nossas raízes e de tudo o que de importante se escreveu no acto do nascimento do Ocidente.

Para a Carla, que o amor pela Hélade não se macule na visão dos díscolos da actual Atenas.

Feliz Natal para todos / สุขสันต์ คริสต์มาส


Catedral da Assunção, Banguecoque, onde se celebrará a Missa do Galo, festa que se repete nesta terra desde aquele distante ano de 1547 em que os dominicanos Frei Jerónimo da Cruz e Sebastião de Canto celebraram em Ayuthia a liturgia do mistério do nascimento do Salvador.
"A pregação foi tão bem sucedida, que os muçulmanos, temendo a expansão do Cristianismo, mataram Frei Jerónimo da Cruz e feriram com gravidade Sebastião de Canto" (Chumsriphan, Surachai. The great role of Jean-Louis Vey, apostolic vicar of Siam. Rome: Universitatis Gregorianae).


Adeste Fidelis (D. João IV). Interp. Beniamino Gigli (1939)

21 dezembro 2008

Este homem é um portento

Thaksin, um dos democratas dos golpes, ilegalidades e da corrupção

"Vencer significa derrotar e liquidar os outros. Quem vence tem razão. E tem razão porque vence. É a democracia no seu pior. Maior. Mais alto. Mais depressa. Mais pesado. Mais forte. Mais rápido. Já não se trata de jogos olímpicos, eles próprios transformados em feira de animais. Trata-se da vida quotidiana. Para se chegar lá, ao "topo", para se ser "líder", tudo o que se pode fazer deve ser feito. Incluindo aldrabices, ilegalidades, golpes, mentira, publicidade enganosa e corrupção. Tudo o que justifique ganhar votos, vender mercadoria e eliminar os rivais não só pode ser feito, como deve ser feito. Sob pena de ser designado na praça pública por perdedor, incapaz ou parvo. E ninguém quer ser parvo!" (António Barreto)


Aqui pela Tailândia, o António seria do PAD e até teria ido ocupar o aeroporto.

Mugabe explicado às crianças / มูคะเบะอธิบายให้เด็กเล็ก


Chegou a altura de José Jorge Letria, "escritor, jornalista e cidadão comprometido com as grandes questões do seu tempo", fazer espalhar pelas bibliotecas públicas mais uns milhares de brochurazinhas da série "Explicar às Crianças o Inexplicável". Questão delicada, sem dúvida, pois explicar aos tenros cidadãos do amanhã a história de horror do oligofrénico que se apossou da Rodésia - outrora um oásis de prosperidade, hoje o quarto país mais pobre do mundo - é algo que até à prodigiosa capacidade de brincar das crianças surge como inverosímel. Mugabe foi inventado pelos soviéticos e aclamado pelo Ocidente como um homem de excepcionais qualidades. Sem tirar nem por, nada o separava dos machéis e outra pigmeiada que a boa consciência fez crismar como "nacionalistas" [de coisa alguma] e "freedom fighters", expressão de cintura larga onde cabiam os Ches, os Bin Ladens, os Ortegas e os Pol Pots.


É sabido que o Ocidente tudo fez para impedir a solução compromissória representada pelo bispo Muzorewa, que venceu as eleições gerais de 1979 - eleições justas, democráticas - teimando em não lhes reconhecer legitimidade, pois a legitimidade de armas na mão da ZANU era, como o foi em Moçambique com a FRELIMO, a única condição exigida pela boa consciência dos areópagos. Mutadis mutandis, como se para o Iraque só se aceitasse um governo onde, à cabeça, estivesse a Al Quaeda, ou no Afeganistão os talibãs.



Depois, foi o que se sabe: o oligofrénico destruiu os seus compagnos de route - só não matou Joshua Nkomo, pois providencial cancro na próstata o retirou do número dos vivos - depois mandou retirar por decreto os lugares parlamentares reservados à minoria branca, destruiu a economia reeditando a deskulakização e as fomes bíblicas de 1932 na URSS, mandou demolir todas as casas pertencentes a membros de tribos minoritárias que se haviam fixado em torno da capital, confiscou todos os poderes, baniu a oposição e empurrou para o exílio mais de 30% da população. Perante o desastre, o soba louco inventou cabalas e conspirações universais para desculpar as políticas ubuescas: a conspiração da rainha Isabel, a conspiração do sionismo, a conspiração dos "pornógrafos britânicos" e outras espantosas maquinações que só uma transbordante veia ficcionista à Swift se atreveria passar ao papel.


Magube é o retrato da África que se quis negra, pura e absolutamente negra, do racismo que não se queria ver ao espelho, da regressão até aos limites da luta pela sobrevivência. Mugabe não é excepção: é a regra de ouro, a mais perfeita decantação do pesadelo em que se transformou o continente. A culpa - se a definição importada do direito tem alguma possibilidade de vingar num continente sem lei - não é de Mugabe, mas de todos os estúpidos inteligentes que o colocaram onde está e de onde sairá morto pois, como ontem afirmou, "o Zimbabwe é meu e ninguém mo tira".



Rodésia (1967-1980)

19 dezembro 2008

A arrogância de certos "Direitos Humanos"


Ontem passei o dia na biblioteca da Alliance Française, cuja colecção oferece-me possibilidade de aceder a obras inexistentes nas bibliotecas que frequento. À saída, dei com uma exposição fora de muros - sim, fora do perímetro, para os transeuntes - em thai e francês com o enunciado da declaração dos Direitos do Homem encimada por fotos alusivas a cada passagem do longo articulado. Pois, a França - por antonomásia a Europa - a querer dar lições aos pobres thais, a fixar-lhes as condições, dizendo o que se pode e não pode fazer, o que é lícito e ilícito, como devem proceder e que tipo de regime se coaduna com a universalidade daqueles nobres príncipios, os tais que todos apregoam conquanto só os outros os devam aplicar. Procurei, procurei, mas não havia ali qualquer alusão ao respeito devido às tradições culturais distintas da europeia, ao direito à identidade e à especificidade das politéias não europeias, às instituições que os Estados jamais colonizados devem preservar. A nobre declaração esquece-se que o texto inspirador de tal Carta Universal foi copiada da Déclaration des Droits de l'Homme et du Citoyen, depressa transformada em programa pelo Club des Cordeliers, que precipitou a instauração do Terror, em 1792. Esquecem-se os preclaros amigos da humanidade que tal texto instaurou em toda a linha a soberania da Nação, quer dizer, fez tábua rasa das liberdades regionais e comunais, aboliu a inviolabilidade dos espaços sagrados, abrindo-os à polícia, tornou os indivíduos objecto da soberania do Estado, dos seus tribunais e comissários. Nunca texto algum foi mais prostituído como aquele. Como quase sempre, as mais inspiradas explicações a ocultar os mais sórdidos propósitos.
Tenho para mim que a Declaração, para os thais, como para outros povos, nada acrescenta àquilo que se encontra há muito fixado nos principais textos budistas. A noção de "direito" é aqui entendida de forma distinta. Não há, no budismo, uma teoria dos direitos, mas uma teoria das relações correctas entre homens, uma Ética Global. Como refere Inada, os "direitos humanos" são extensão da natureza humana, do bem como força de destruição do mal, da evitação do sofrimento, da paz interior que projecta a paz social. Assim, para os budistas, tal impulso para o triunfo do bem não diz apenas respeito à dimensão social e política da existência, mas a todas as relações, interiores como exteriores, do homem consigo mesmo, com os outros homens e com a natureza. Esquecem os "philosophes" que o budismo apresentou em uníssono todos esses "direitos" fixados em Cartas Universais pelo Ocidente, quase dois mil anos antes daquelas encontrarem aceitação entre nós: aqui há "Direitos do Homem", "Direitos da Mulher e da Criança", "Direitos dos Animais" desde que o Iluminado iniciou o ensino do Dharma. Por tal razão, a teoria política budista exclui a ideologia, pois não pode haver pensamento político fora do bem. Em vez de se preocuparem com "as visões da sociedade", com as "mudanças sociais" e com a engenharia das instituições que melhor servem o homem, os budistas encaram-nas como simples e pobre extensão da revolução interior que se opera em cada homem. Tudo está e tudo depende do homens; não há "humanidade" mas homens singulares em busca da perfeição.

18 dezembro 2008

Um Senhor como Primeiro Ministro / นายกรัฐมนตรีของเมืองไทย




Acabou a bagunça, como aqui disseramos há duas semanas. A Tailândia viu partir ministros de terceira ordem e restaurou a confiança no normal funcionamento das instituições. O novo primeiro-ministro Abhisit Vejjajiva prestou juramento ao Rei e a vida regressou à normalidade. Hoje apercebi-me que os turistas voltaram em força, enchendo ruas e lojas. As pessoas com quem falei mostram-se aliviadas. Vejo, de novo, o sorriso thai por todo o lado. A Tailândia aprendeu a lição. O novo governo anunciou, como prioridade, destruir as causas que levaram à vaga populista, demagógica e cesarista corporizada por Thaksin. A plutocracia não passou, não foi necessário golpe de Estado e a democracia saíu mais forte. Que assim seja, sempre. Aos pés do retrato do Rei, o primeiro servidor do Estado presta homenagem ao maior servidor da Nação. Em suma, a hierarquia natural das coisas: o Estado ao serviço da Nação. Dignidade restaurada. Queriam brincar, experimentar a fortaleza da monarquia, impor um facto consumado e acabou-se. O dinheiro vem e vai, pagando, corrompendo, encomendando parangonas, espalhando rumores e intrigas. Aqui fez mossa, mas acabou derrotado. Que assim seja, sempre.


"Somos thais de todo o coração"

Bangkok: a Veneza do Oriente em grandiosa exposição (2) / กรุงเทพมหานคร งานศิลปะ และ ประวัติศาสตร์


A Banguecoque clássica - programa urbanístico e monumental com declarada intensão restauracionista vazado de Ayuthia - terminou no último quartel do século XIX, quando a macademização, a recepção do urbanismo e edificação de estilo ocidentais se sobrepuseram. O Sião conheceu transformações económicas e sociais aceleradas durante os reinados de Rama V e Rama VI. A construção do Estado moderno estava praticamente realizada, sustentada pela ideologia de uma via siamesa para a autocracia (desenhada a partir do modelo russo dos últimos Romanov e pelo Raj britânico sobre a Índia), mas também pela crescente afirmação do nacionalismo.

Em 1932, um golpe militar e o anúncio da imposição de um regime constitucional, abriu novo capítulo na história do país. O novo regime, nascido com a aprovação do Rei Rama VII, depressa deixou revelar as suas verdadeiras fontes de inspiração: as ideologias da modernidade então prevalecentes no mundo entre-guerras, ou seja, o comunismo e os fascismos.





No fim dos anos 30, os novos dirigentes do Sião, vendo na preservação da monarquia um forte bastião reactivo à escalada totalitária que subscreviam, impuseram uma regência e precipitaram a saída e abdicação de Rama VII, que morreria no exílio na Grã-Bretanha em 1941. O país, agora regido pelo filo-fascista Phibun Songkram (พิบูล สงคราม), transformou Banguecoque no centro de experiências de duvidoso alcance e resultado, aplicando nas obras públicas um programa cujo objectivo era o de exibir o nascimento de um Estado-nação étnica e linguisticamente homogéneo. As minorias foram confrontadas com sistemático programa de nacionalização compulsiva, os siameses submetram-se à brutal política de "thaificação" - paradoxalmente, o novo regime aboliu os trajos tradicionais, impondo a ocidentalização como conquista da "civilização" - e desenvolveram a mística nacionalista mercê da uniformização, inculcação ideológica, mobilização e propaganda. Em 1940, com o colapso da França ante Hitler, o Sião mudou de nome e passou a chamar-se Tailândia. Os exércitos tailandeses iniciaram uma guerra com a Indochina Francesa, atacando o Camboja para a recuperação dos territórios da margem esquerda do Mécongue, outra vassalos do Sião. Em 1941, o país declarou guerra aos EUA e permitiu a passagem do exército japonês nos ataques à Malaia britânica e Birmânia.


O programa de obras públicas de Phibun marca, ainda hoje, os grandes nós rodoviários da capital. Os monumentos-praça da Democracia, mas sobretudo o Monumento à Vitória (Anusawari Chai Samoraphum, o único existente no mundo em memória da vitória do Eixo), foram encomendados a arquitectos e decoradores italianos residentes na Tailândia e são, sem tirar nem por, verdadeiras obras de arte fascista com colagem de símbolos siameses.



Severamente bombardeada pela aviação Aliada, Banguecoque renasceu dos escombros nos anos 50. Agora cidade alinhada com o Mundo Livre, com os 3 biliões de dólares recebidos dos EUA para se apetrechar de infraestruturas necessárias a uma grande capital, foi rectaguarda logística e de divertimento para centenas de milhares de GI's durante o conflito vietnamita. Deste tempo marcado pela procura de paraísos artificiais, nasceu a indústria de divertimento nocturno, hoje uma sombra do que tará sido nos anos 60, 70 e 80, com os seus bordeis, "ago-go" bares, cabarés, salas de massagens e hotéis de curta permanência. A Tailândia deixou para trás o subdesenvolvimento. A consolidação económica, a industrialização, o nascimento de uma classe média urbana com necessidades de consumo e lazer, resultado da era do desenvolvimentismo a todo o custo que marcaram os regimes militares após Sarit Dhanarajata , converteram-na numa Meca do turismo exótico, com os hotéis de luxo, as grandes superfícies comerciais, os parques e indústrias temáticos fixando "a verdadeira atmosfera thai" (Rose Garden, Jim Thompson House, Snake Farm), a que se juntou, depois, o incentivo governamental a festividades tradicionais ameaçadas pelo desenvolvimento. Banguecoque passou também a emblematizar o caos rodoviário, com interminável congestionamento automóvel, poluição galopante, anomia e desorganização resultantes da chegada de milhões de camponeses em busca de melhores condições de vida. Os últimos anos têm assistido a importantes melhorias. A criação do Metro de Superfíce e do Metropolitano, a limpeza e pintura sistemáticas das fachadas, centrais de tratamento de efluentes e resíduos sólidos estão a dar uma nova cara à capital. As preocupações ambientalistas, muito estimuladas pelo Rei, desencadearam o surgimento de muitas organizações cívicas que se vão impondo aos interesses de construtores e especuladores. Banguecoque muda todos os dias, mas fica sempre Banguecoque.





Contudo, para os budistas, o tempo é ilusão: tudo passa, tudo morre, tudo está condenado ao esquecimento. Tal como Sukothai e Ayuthia, ontem grandes capitais siamesas, hoje meros parques arquelógicos, Banguecoque sabe que um dia também desaparecerá, tragada pelas águas ou pela luxuriante natureza. Dou comigo cada manhã, do meu apartamento num 20º andar no centro da zona comercial, a seguir o voo de corvos, das aves de rapina e dos grandes morcegos. Ao descer, nos galhos das árvores saltam esquilos, ratazanas maiores que gatos regressam aos interstícios da terra, cobras de anéis brilhantes e coloridos apanham os primeiros raios de sol. Banguecoque, quando deixar de o ser, ilustrará a vã ilusão do homem em viver para a eternidade.


Paz, Desenvolvimento e Liberdade, canção em louvor do reinado de Bumiphol (Rama IX)

16 dezembro 2008

Banguecoque: a Veneza do Oriente em grandiosa exposição (1) / กรุงเทพมหานคร งานศิลปะ และ ประวัติศาสตร์




Os olhos não se cansam e os pés não param com tantos eventos de primeiras águas. Os tailandeses, decididamente, adquiriam as técnicas mais arrojadas e lançam-se em catadupa de exposições que, no Ocidente, entrariam pela porta grande dos maiores museus e salas de exposição. Hoje, depois de horas de leitura na biblioteca - sintomaticamente lendo uma memória histórica sobre a fundação de Banguecoque - visitei a Art of Yesterday, Art of Tommorow - patente no já aqui referido Bangkok Cultural Center.

Busto do general Taksin

Krung Thep Maha Nakhon, ou antes, Banguecoque para os ocidentais, era um simples lugarejo em meados do século XVIII, primeira paragem fluvial para o trade junk oriundo de Macau. Após fiscalização da carga e tripulação na foz do rio Chao Phraya (o rio em forma de serpente que atravessa a actual megalópole), as mercadorias eram transvasadas para embarcações de menor calado e transportadas para Ayuthia, então capital siamesa. Em 1767, Ayuthia foi assaltada e saqueada pelos exércitos birmaneses e o Estado thai entrou em colapso. Um líder surgiu nesse momento trágico e liderou a resistência ao invasor. O novo homem forte, Phya Taksin, verificando a indefensibilidade da antiga capital devastada, instalou-se em Tonburi, hoje cidade satélite de Banguecoque, situada da margem oposta do rio. O seu sucessor, general Chakri, fundador da actual dinastia, foi coroado rei em 1782 e decidiu erigir uma nova cidade na margem esquerda do Chao Phraya, menos exposta a incursões inimigas.



Os primeiros dias da nova mandala thai restaurada não foram fáceis: guerras intermináveis contra os birmaneses, penúria monetária e matérias primas, rarefacção demográfica e quase total ausência de funcionários qualificados. A dinastia Chakri queria demonstrar ocupar legitimamente o trono, pelo que não olhou a meios e sacrifícios para se lançar numa política de grandes obras que exibissem a restauração do Estado. Para o efeito, recorreu-se à pedra e tijolos da antiga capital, abriram-se portas à vaga de imigração chinesa, redesenhou-se a estrutura social dirigente. Nesses dias, muitos homens oriundos dos estratos sociais mais humildes ascenderam na administração e serviço do Rei. Entre eles pontificavam muitos católicos luso-siameses, que ocupariam doravante e até à década de 1860 postos relevantes. Nos frescos do novo coração do Estado, o complexo de palácios e templos, armazéns, casamatas e escritórios, aí estão eles, os portuguet, de mosquete e espingardas de pederneira em riste defendendo a cintura de muralhas.


Povo anfíbio, "civilização hidráulica", "economia do arroz", o Reino do Sião construiu a sua capital em terrenos propícios à produção e escoamento do precioso gramíneo. Os canais (artificiais) que até há décadas substituíam as estradas, abertos pelo trabalho obrigatório das corveias do sistema sakdina - "feudalismo siamês - de que eram isentos os portuguet, merecereram a curiosidade dos viajantes europeus, que passaram a referir-se a Banguecoque como a "Veneza do Oriente".



Em meados do século XIX, a capital do Sião mostrava o desiquilíbrio e diversidade característicos das grandes cidades agro-mercantis do sudeste-asiático. Tal como Rangoon na Birmâmia, sobre o Irrawady e Saigão sobre o Song Sai Gon, possuía um núcleo administrativo e religioso com grandes edifícios de prestígio, envolvido por um dédalo de caminhos cercados de construções de materiais perecíveis, com lojas para a rua no andar térreo e habitação no primeiro piso, habitadas por siameses. Outras "baixas" comerciais e industriais nasceram em zonas mais distantes, acolhendo comunidades étnicas de origem vária, sobretudo chineses, mas também indianos e malaios, que se foram fixando e afirmando ao longo do século XIX. Os "enclaves" das minorias religiosas, "mouros" e católicos, desenvolveram-se na zona ribeirinha em torno de mesquitas e igrejas.


Ananta Samakhom (sala do trono): estudos para abóbada

O impacto ocidental foi traumático, crescendo de intensidade a partir dos meados do século XIX e levando o Sião a adaptar-se cultural, tecnológica e institucionalmente ao Ocidente, sob pena de ser considerado um "Estado bárbaro" e intervencionado pelo leão britânico, que entretanto se apossara da Birmânia e sultanatos malaios, e pelo galo francês que havia cravado unhas sobre os actuais Laos e Camboja, territórios outrora vassalos do Sião. Datam das décadas de 1870, 1880 e 1890 os grandes edifícios públicos de aparato, feitos à imagem da arquitectura de pedra, cimento e ferro europeus. Soluções arquitectónicas híbridas, onde a mão de arquitectos, decoradores, pintores e desenhadores italianos é marcante, expressam a angustiosa procura de um "modelo siamês" integrado numa linha internacional.


(Continua amanhã)