27 dezembro 2007

Pertinente pergunta do Corta-Fitas



O Corta-Fitas submete o seu auditório a pertinente questão: quem é actualmente o melhor colunista na imprensa portuguesa? A resposta possível, parecendo dilemática, não o é, pois limita-se a colocar em confronto a velha elite e a nova elite ascendente. A velha elite exibe nomes que ficarão como referência para uma certa mundivisão anos 60 e 70 - António Barreto, Pacheco Pereira, Vasco Pulido Valente - mas está a perder o pé, fala para si e para as suas memórias. É a repetição de excitações e furores que pouco ou nada dizem à maioria dos portugueses. A nova elite, essa faz na imprensa aquilo que os velhos a não deixam fazer na vida política. Destaco o papel de Rui Ramos, combatido, criticado mas entendido por aqueles que nada querem mudar. No fundo, a nova elite nunca chegará ao poder, o que é duplamente triste, pois não haverá rotação na esfera do poder nem fixação de novos valores alternativos. É por isso que os regimes, em Portugal, estão condenados a morrer de reumático. A prová-lo, o elucidativo vídeo que escolho para ilustrar esta evidência.

26 dezembro 2007

Fardismo


Para os adoradores de passadeiras, galões, divisas, bandas e berloques, a Tailândia é um paraíso. Aqui, quem não tem uma farda não existe. Há farda para a escola primária, farda para o secundário, farda para a universidade, farda para cerimónias académicas, farda para funcionários públicos e empregados de supermercados, farda para gasolineiros e empregados dos correios, farda para taxistas e empregados de hotel, farda de passeio e serviço para ministros e directores-gerais, farda para empregados da limpeza. Até os candidatos ao parlamento disputam a mais bela farda para o cartaz da seriedade. Antes que o lixo eleiçoeiro recolha ao seu cemitério, tirei algumas fotos aos cartazes fronteiros à minha casa. Aqui, três candidatos de um partido monarquíssimo, nacionalistíssimo e religiosíssimo. Parecem três actores de telenovela, que aqui leva o nome de lakhon-tee-wee, mas não: são políticos empedernidos prontos para as mais duras batalhas da oratória parlamentar. Ao menos têm um palminho de cara. Estão a ver a Odete Santos, a Maria de Belém ou a Matilde Sousa Santos metidas numa farda ? Pois, seria algo entre um salsichão a rebentar pelas costuras e um queijo da Serra amanteigado a sair de dentro de uma casaca medalhada.

24 dezembro 2007

Feliz Natal



Para o João Gonçalves, o meu despertador matinal, que me faz gargalhar e indignar, um Natal cheio de Paz e Irreverência, duas coisas desaparecidas do espírito e dos modos dos portugueses.

23 dezembro 2007

Visita obrigatória


A história breve de como os estrangeiros nos roubaram a alma.

O jovem idealista e o dragão da plutocracia



Hoje é dia de eleições na Tailândia. O confronto opõe o Partido Popular (PPP), dirigido por uma personagem de terceira fila, mandarete do deposto primeiro-ministro Taksin - exilado em Londres - e o Partido Democrático, dirigido pelo jovem Abhisit Vejjajiva. O retorno à democracia carrega, resrvados prognósticos quanto ao futuro imediato do papel que caberá ao Rei, até hoje árbitro e referência obrigatória. Taksin Shinawat, o mais rico homem do país, pretende regressar se o PPP obtiver maioria no parlamento. Afastado do poder por um golpe de Estado, tem manobrado nos arcanos, abrindo imensa saca de dinheiros para comprar candidatos e apelar à reforma profunda da vida política nacional, o que aqui quer dizer - sem o dizer - retirar protagonismo e peso à instituição real. É o velho choque entre o poder da tradição e o poder do dinheiro. Taksin quer, todos o sabem, diminuir a intervenção da coroa e, quiçá, vir a colocar-se como putativa alternativa à monarquia. O grande capitalista dá-se ares de preocupações sociais. De discurso populista e demagógico, os candidatos do PPP apontam baterias à "aristocracia conservadora", às Forças Armadas e ao Funcionalismo do Estado, acusados de monopolizar e perpetuar o peso do aparelho do Estado. Contudo, a história recente tem-no demonstrado, a possibilidade de retirar ao Rei prerrogativas envolve tremendos perigos para a unidade nacional, tanto mais que a Tailândia é um puzzle de etnias e religiões e qualquer mudança tendente a concentrar poder num sector da sociedade civil far-se-á em detrimento da harmonia conseguida ao longo de 50 anos de intervencionismo do actual Chefe de Estado. Anteontem fui às compras e cruzei-me com Abhisit em plena rua. Pedi-lhe que me deixasse tirar uma fotografia. Sorriu e, com afabilidade, perguntou-me de onde era. É o típico quadro superior da urbana, educada e influente classe dirigente que cerra fileiras em torno do Rei. Este jovem idealista, que fala de pátria, unidade nacional, justiça e desenvolvimento sustentado é o oposto de Samak, o homem de Taksin, uma figura truculenta, maciça e agressiva cujo passado carrega o mais reservado juízo a respeito da seriedade com se entrega à vida pública. Samak foi ministro do interior em 1973 e foi sob ordens suas que milhares de estudantes foram presos e massacrados no campus universitário. Depois, foi governador de Banguecoque e o desempenho saldou-se por um fiasco clamoroso. Ultimamente rendeu-se à munificência do Midas tailandês e por ele fará tudo para ocupar um lugar, por sinal bem triste, numa eventual reviravolta dramática da vida deste país.